Menina

Ainda ontem brincava com bonecas
Ainda ontem os olhos brilhavam e as faces coravam
Ainda ontem a inocência reinava

Ainda há pouco descobria o corpo
Ainda há pouco sonhava com o beijo
Ainda há pouco me entregava

Tempo que passa
Voa para longe
Onde foste tão célere
que te perdi?
Onde estás pequena menina?
Cresceste
Viraste mulher
Os anos vieram
Nem deste por eles

Ainda ontem era menina
Ainda há pouco sonhava crescer
Ainda vive dentro de mim

Topless. Sim ou não?

Topless. Sim ou não?

Um dia destes, numa pequena praia solarenga, cheia de turistas, um jovem casal ia à água e, de regresso, ela atraía a atenção de toda a gente, nomeadamente do público masculino.
A rapariga, de tez clara, cabelo loiro, e corpo elegante, fazia topless. O peito era generoso e bonito.

A minha amiga comentou: “não sei como o namorado dela não se importa. Com o meu era impensável.”
Respondi-lhe que era com ele que ela ia para a toalha, namorava e voltava para casa. Os outros podiam olhar, mas não passava disso.

Mais importante que isto, é ela não se importar. E se ela está bem na pele dela, quem é o rapaz ou outro qualquer para a proibir de fazer o que quer?
Vivemos ainda com mentalidades muito arcaicas, pequenas e pouco evoluídas.
O homem (alguns) continua a achar-se dono da mulher e esta, ao seu lado, ‘deve-lhe obediência’.

Continua-se a achar que uma mulher bonita, sorridente e simpática é uma oferecida ou procura sexo. Uma mulher que tenha as mesmas atitudes de um homem padrão é considerada puta.

Esta situação fez-me lembrar outras, que presenciei.
Todos os homens possessivos, controladores e ciumentos que conheci, não tinham moral para exigir o quer que fosse. A mulher não podia ir ao café, não podia cumprimentar o vizinho, não podia vestir a roupa que lhe apetecia porque ele achava que era para provocar outros; ele podia falar com todas as amigas, ir para o café com os amigos, sair à noite até às tantas, ver pornografia, vestir o que lhe apetecesse e até trair a mulher.

Todos deveríamos ter liberdade para viver do modo como queremos, desde, claro, que isso não prejudique ninguém.
Se ambos decidirem ter ou não ter essa liberdade, é diferente. A mulher pode optar por apenas fazer topless, por exemplo, numa praia deserta ou colocar a parte de cima quando vai à água, se isso os deixa desconfortáveis.

Na minha opinião, deverá existir bom senso e respeito pela liberdade e bem-estar de ambos. Sem proibir, sem castrar.

Aprisionar uma alma só faz com que assim que a porta, ou a janela, se abra, ela voe para longe e não volte.

E vocês, o que acham?

A Rapariga no Gelo

Adorei.
Um verdadeiro thriller, com um ritmo fantástico que nos agarra e transporta para os diferentes cenários londrinos.
O misterioso assassinato, com contornos sexuais, de uma bela jovem aristocrata faz com que a esquadra de Lewisham Row entre em alvoroço e sinta a pressão da família que quer, a todo o custo, manter as aparências.
A inspetora-chefe Erika Foster foi chamada para resolver o caso, mas a instabilidade emocional que vive, devido à morte do seu colega e marido, faz com que seja muitas vezes desacreditada.
Uma história brilhantemente concebida e escrita, com pormenores técnicos que nos deixam siderados.
Até que ponto o poder e o dinheiro comandam e compram tudo e todos?
Capítulos breves com duas ou três páginas marcam um compasso que nos torna adictos.
O cheiro a morte é uma constante.
Recomendo.

Casa

A casa está tão triste
A sala tão vazia
O quarto ficou tão amplo
Os espelhos refletem saudade
Os candeeiros choram a falta de luz
E a nossa cama?
Tão grande, deserta
Perco-me nas noites turvas
Congelo
Falta-me o calor do teu corpo
Mesmo que distante do meu
Sentia-te
Ouvia a tua respiração
O teu perfume envolvia os lençóis
Se antes não tinha espaço no roupeiro
Agora as camisas parecem esqueletos
pálidos, abandonados em isolamento, com peste
Falta-me a cor dos teus vestidos
O barulho dos saltos altos pelo soalho
As maquilhagens espalhadas pelo balcão da cozinha
Os longos fios dourados perdidos nas loiças
Agora imaculadas
Até dos soutiens dançantes, que tantas vezes me irritavam por andarem perdidos,
sinto falta
Disseste que precisavas de espaço, de um tempo
Acho que já passaram mil tempos e espaço infinito
Onde estás?
Vejo-te em fotos, em festas, rodeada de amigas e amigos
Ris
Pareces estar feliz
O tempo está a fazer-te bem
Sabes que não te consigo dizer
Mas morro de saudades tuas
Penso que sabes que te amo
Que preciso de ti
Talvez o devesse ter dito antes
Dói-me o peito
Nada me encanta
Volta, amor
Sem ti
sou uma casa abandonada

– Amo-te

Podia sussurrar-te ao ouvido

Todos os dias

Se estivesses aqui

Se aceitasses o que tenho

O que te quero oferecer

– Amo-te

Escreveria a cada manhã

No espelho embaciado

Dos nossos mergulhos

Salpicados de espuma

– Amo-te

Diria ao almoço

Ao brindar contigo

Com o melhor néctar

Que roubaria aos deuses

Apenas para contigo celebrar

– Amo-te

Desenharia no teu corpo

Rasgando os lençóis

Na fúria da paixão que me consome

– Amo-te

A cada beijo que te faria suspirar

A cada contacto da nossa pele

A cada preliminar que te ofereceria

A cada carícia íntima no teu ser

A cada introdução profunda do meu

Deixa-me

– Amar-te

Falar de amor não quero
Não me apetece
Nem sempre estamos com disposição para amar
Para ver o mundo com olhos doces
Há dias
Talvez semanas
Não sei
Fases menos boas
Em que nada parece sorrir
Horas de céu nublado
Com chuva nos olhos
Apetece tudo menos amar
Por dentro há vontade de partir
Partir para longe ou a cara de alguém
Partir tudo
Destruir
Gritar
Vociferar
Destilar as mágoas
As dores
Os desapontamentos
As desilusões
Períodos que nada nem ninguém nos serve
Nem nós próprios

A depressão acena ao fim da rua
Sorri para nós
Atrai-nos
Com um grande algodão doce na mão
Ou será vodka?
Chama o nosso nome
Sussurra
Pela calada
Mantém-se atenta
[à] Espera
E tu, que fazes?
Vais?


(A depressão é um assunto sério; se sentir que os sentimentos de angústia, tristeza e ansiedade estão a instalar-se e não desaparecem, procure ajuda médica especializada)

Latejar

Há uma música e um tema que gosto, em particular, por causa da letra e da ligação especial que tenho com a sua mensagem. Vejam se sabem:

«Muda de vida
Se tu não vives satisfeito
Muda de vida
Estás sempre a tempo de mudar Muda de vida
Não deves viver contrafeito Muda de vida
Se há vida em ti a latejar»

Toda a restante letra é maravilhosa, mas vou pegar nesta última frase – «se há vida em ti a latejar
Existem pessoas, e todos nós já vimos, que parecem andar cá por andar; chamo-lhes mortos em vida. Outros há, também, que espalham raios de sol e flores por onde passam.

Latejar significa bater, palpitar, pulsar com frequência. É constante, marca uma cadência, um compasso, não nos deixa esquecer. Quando isso acontece, e sentimos “algo a bater”, “a martelar-nos na cabeça”, é o corpo a comunicar, a pedir uma mudança; devemos escutar.

Aconteceu-me já várias vezes, ao longo da vida, com diversas situações, empregos, lugares e pessoas.
O latejar de que tinha de fazer outra coisa, que ali já não estava feliz. O latejar daquele lugar que nos faz sentir mal e precisamos sair. O latejar de uma relação onde o principal já se foi.

Tudo é energia, e a verdade é que nem todas as energias vibram na mesma frequência. Devemos nos conectar com aquelas que estão em sintonia connosco.

Há inúmeros sinais que, se estivermos atentos, identificam, claramente, que tipo de palpitar está ali. Depois, cumpre-nos dar ouvidos a esse pulsar. Mudar aquilo que não está bem. A nossa intuição “fala” dessa forma.

Com as aprendizagens, e consequente amadurecimento, vamos alterando os nossos padrões e é por isso que certas pessoas, lugares, cargos, deixam de nos assentar bem. Deixamos de caber e começamos a sentirmo-nos desconfortáveis, apertados. Como uma roupa que nos deixa de servir, mas insistimos em usar.

Quando não queremos tomar uma atitude, muitas vezes, o Universo resolve por nós. Nem sempre a transformação ocorre da melhor forma porque andámos a evitar, e somos forçados a mudar, aquilo que não estávamos a ter coragem para alterar. O medo tolhe e é inimigo da mudança. Se for preparado, cuidado e consciente é sempre preferível.

As leis universais não falham. A lei da atração e da frequência são reais. Atraímos a mesma energia em que vibramos. Por isso, há tantas pessoas que passam pela nossa vida, alguns que até considerámos amigos, mas partem para outro caminho, e não deixam saudades, tiveram o seu tempo; outras que, entretanto, chegam e ocupam um lugar de destaque no nosso coração e, ainda, as exceções que ficam para sempre.

Empregos que foram fantásticos durante uma época, mas deixaram de o ser. Casamentos, casas, carros, roupas, penteados, cidades, destinos de férias…
Viver deve ser um prazer, devemos ser felizes com aquilo que somos, com o que fazemos, com quem estamos e onde nos inserimos.

Quando nascemos só nos é dada uma vida. O que fazes com ela?

«Olha que a vida não

Não é nem deve ser

Como um castigo que

Tu terás que viver».

(Letra e música de «Muda de vida» – António Variações/Humanos)

Volta

Não me posso perder
Sair de mim…
Sabem como é?

Eu sei.
Já o fiz
Vezes sem conta
Por um amor
Pela família
Por uma amizade
Por uma crença
ou
Apenas porque sim
Porque sou curiosa
Como as crianças
Que se metem em apuros
Nunca satisfeitas
Querem sempre mais.

Vamos descobrir
Onde vai ter este caminho?
O que está para lá do monte?
Vamos subir o rio?
Saltar pedras
Passar a ponte
Misturar sabores
Mergulhar no fundo do mar
Trocar todas as cores
Caminhar nas nuvens

Volta à terra miúda!
Onde é que já ias?
Não sei..
Para fora de pé
Para fora de mim

Não te esqueças do caminho de volta
Agora, já não…

“Que parceria tem a luz com a escuridão?”
Poderá existir amizade entre o sol e as trevas?
Alguém leal pode conviver com desleais?
A falsidade e a mentira podem ser parceiras da verdade?

Não.
Não por muito tempo.

Tentamos contornar
Ludibriar
Usamos velas, candeeiros
Lanternas ou candelabros
Pintamos com brilho dourado
Quem ao nosso lado está
Enganamo-nos achando que tal relação será possível
Abrimos as janelas
Mostramos os raios de sol

Mas, quando a noite cai
O negro espalha-se
Como uma mancha de óleo
Absorve a alma
Surgem contornos difusos
Sombras perdidas
Uivos arrepiantes
Vultos escondidos
A morte é certa
Pode tardar
Mas não falha
A nuvem negra tapará o sol
Que se recolhe e chora