Pelos cabelos

Não tomou a decisão de um dia para o outro. Pensou, ponderou, avaliou, chorou…
Levava anos de cansaço, das lidas da casa, do trabalho, dos filhos, do bêbedo e chato do marido… estava extenuada. Sentia-se oca, vazia, a precisar respirar, a precisar viver.
As responsabilidades infinitas; as contas intermináveis; as demandas constantes da família; os filhos sempre insatisfeitos; o homem da casa, que a traía sempre que podia; o lar que ela cuidava há anos, de manhã à noite, sem folgas. Farta de lavar, limpar, cozinhar, passar, arrumar sem que ninguém lhe desse valor. Não faziam nada e ainda reclamavam.
Rebentou.
Naquela noite, aquele moreno de cabelo comprido, em tronco nu, a tocar bateria, tocou-lhe a alma. O rock alto demais enchia o salão e o seu coração. Arrebatou-o e deu-lhe asas. Sentiu-se livre, até chegar a casa e levar uma tareia do marido. Quis morrer. O corpo não lhe permitiu. Não tinha forças nem para se matar. Se calhar, nem a coragem.
Enquanto as feridas da carne iam sarando, as do espírito iam-se tornando cada vez mais profundas.
Queria mandar tudo e todos à merda. Como?? E os miúdos? E o dinheiro que não tinha?
O moreno sussurrava-lhe: “Anda, vai ficar tudo bem. Mereces ser feliz, mereces viver”. E era isso que lhe faltava. Vivia para os outros, a vida dos outros. E a dela, onde teria ficado?
Naquela manhã fez uma única mala e saiu. Nunca mais voltou.

Farta da escuridão que me rodeia
Farta das trevas que me travam
Cansada deste sufoco
Cansada de negro
Preciso de luz
Urge romper as teias
que me tecem o corpo
Que me tiram a luz, o ar
A vida
Preciso fugir
Libertar-me
Sentir a luz
Dar uso às asas
Esticá-las
Tocar no infinito
Viver o raiar do sol
Afinal de que serviu a espera?
Toda esta transformação?
Senão para sair a voar
Chega de prisões
Grilhões
Amarras
Agora é tempo de liberdade
De amor
De paz
Tempo de largar o casulo
Já não me serve mais

És o que és

Podes correr
Podes te esconder
Podes fugir
Viajar até ao fim do mundo
Mergulhar fundo
Ir a pé
De bicicleta
Mota
Carro
Barco
Ou avião
Para o topo da montanha
Ou para a gruta mais profunda
Enfiar a cabeça na areia
Ou debaixo de água
Maquilhar-te
Vestir outras roupas
Trocar de casa
Mudar o cabelo
Imitar A ou B
Afogar-te em gin, whisky,
rum, vodka ou tequila
Encher-te de fumos vários
Calmantes ou excitantes
Ocupar-te com vícios mil
Podes tentar

Uma coisa é certa

És o que és
De ti não poderás fugir para sempre
Encara-te, assume-te e ama-te
És suficiente
Exatamente como és!

Poesia ou poema?

Uns chamam-me poeta
Outros poetisa
Alguns de escritora,
autora e talvez até de louca

Uns dizem que escrevo poesia
Outros umas crónicas e contos
Alguns chamam-lhe prosa poética
Ou ainda uns dizeres ou devaneios

Talvez sejam apenas histórias
Ou desabafos

Posso entrevistar
Questionar
Escrevinhar
Rabiscar
Divagar
E até rimar

Se tem as métricas no lugar
Não sei
Provavelmente não
Se tiver será obra do acaso

Há quem goste
Há quem não goste
Há quem leia
Há quem não leia
E …
está tudo certo

O que sou?
O que escrevo?
Como sou?
Como escrevo?

Quem sabe?
Quem decide?
Quem é O dono da razão?

Sei que existem palavras
Que martelam na minha cabeça
Pensamentos e sentimentos
Histórias, sonhos e invenções
Frases e alinhamentos
Que não me dão descanso
Enquanto não saem dos compartimentos

Pouco sei
Pouco me importa
Talvez seja tudo isso
Talvez não seja nada

QI vs QE

Vemos muitas pessoas a terem sucesso na sua vida profissional e nem todas têm a técnica e os estudos perfeitos.

Muitas são autodidactas, foram aprendendo conforme podiam. Várias vezes, sem disponibilidade económica para investir em si próprias; noutras, sem o tempo ou os apoios necessários. Mas, tentam, persistem, vão à luta e vingam na profissão que amam. Porquê?

Onde quer que seja, em que área for, aprendi que mais importante que canudos e até que muita inteligência é ser-se boa pessoa.

Por exemplo, podes ter toda a técnica e a melhor formação do mundo em determinada área do Fitness, mas depois não tens empatia, não tens paciência para ouvir, não és simpático ou carismático, não te envolves com as pessoas… como podes ter sucesso? Elas acabarão por procurar outro técnico, mesmo que não tenha tantas habilitações académicas, mas seja cuidadoso, preocupado, interessado. Outro exemplo: és dono de uma padaria, fazes e vendes bom pão, mas estás sempre de trombas para os clientes, és rude e mal educado. Mais cedo ou mais tarde, acabarão por ir comprar pão noutro lado. Claro que se o pão não prestar também não adianta de muito a simpatia.

Por isso, cada vez mais, tem sido dada importância a um elevado QE, em vez de um ótimo QI.

“O quociente emocional (QE) exprime o índice de inteligência emocional, algo diferente do quociente de inteligência (QI). Muitos pais apostam muito na formação académica dos seus filhos, mas, ao que parece, o QI apenas perfaz até 20% dos fatores que determinam o sucesso na vida.

Por isso é que vemos algumas pessoas, que brilharam nos tempos de escola, com empregos triviais, enquanto alunos medianos ocupam, hoje, altos cargos.”

Mas, na prática, o que é o QE?

“QE nada mais é do que o conjunto de habilidades emocionais — como autocontrole, empatia, autoestima, autoconfiança, afabilidade, automotivação, resiliência, autoconhecimento e outros traços pessoais — que ajudam no desempenho individual e facilitam os relacionamentos interpessoais. Em outras palavras, o QE refere-se à capacidade que as pessoas têm para perceber, controlar, avaliar e expressar emoções.

O Quociente Emocional é composto por dois tipos de inteligência: a intrapessoal e a interpessoal. Dentro dessas inteligências, é preciso reunir 5 características básicas que formam um bom QE. São elas:

1. Autoconhecimento emocional: diz respeito a conhecer os próprios sentimentos e emoções quando eles ocorrem;

2. Controle emocional: habilidade para lidar com os próprios sentimentos, adequando suas reações a cada situação;

3. Automotivação: consiste na capacidade de dirigir as emoções, os sentimentos e os esforços a serviço de um objetivo maior;

4. Empatia: reconhecimento das emoções em outras pessoas, habilidade para se colocar no lugar do outro e reagir de acordo com o que é percebido no próximo;

5. Sociabilidade: basicamente a habilidade de desenvolver relacionamentos interpessoais amigáveis, produtivos, respeitosos e saudáveis.

Não se pode desconsiderar a importância do QI, afinal, o raciocínio lógico, as habilidades matemáticas e o potencial cognitivo de cada um podem ter influência direta no sucesso. Entretanto, há fortes indícios de que o QE é, de fato, mais relevante. Não é à toa que grandes génios fracassam e pessoas com um QI modesto se tornam super bem-sucedidas.”

Afinal de contas, de que adianta ser uma pessoa muito inteligente, mas não ser capaz de administrar bem as emoções?Ou ter muitas habilitações mas ser-se a shitty person?

(Excertos retirados de diversos artigos na internet sobre QE.)

Teste para curiosos em:

https://blog.runrun.it/recursos-humanos-teste-inteligencia-emocional/

Diferenças

Sempre me atraiu gente diferente, estranha.

Nunca gostei muito de seguir modas. Quando a maioria vestia Benetton, eu comprava tecidos e mandava a costureira fazer saias compridas muito justas ou muito amplas, calças super largas ou super apertadas – sempre pretas ou bordeaux, usava as camisas enormes do meu pai e ténis bota, ou só bota, pretos. Às vezes, também usava as gravatas dele.

Se todos iam para a direita, eu ia ver o que se passava à esquerda. Se era proibido fazer algo, era quando o fazia mais depressa. Esgueirava-me às aulas, até não poder mais, e ia com uma amiga para a Alameda ouvir Xutos&Pontapés, com headphones na cabeça, enquanto apanhávamos sol. Andava sempre acompanhada do meu walkman da Sony e havia sempre algum livro da Agatha Christie na cabeceira. Atraíam-me rapazes mais velhos e prédios escuros com labirintos não recomendados. Rapei o cabelo de um lado e usava comprido do outro, pintado de vermelho, preto ou azulão. Mas nunca nada muito excessivo ou chocante.

Sempre saí à noite com a malta masculina. Nunca tive muitas amigas. As poucas que tinha não podiam sair. Fui uma das que teve carro mais cedo. Queria independência. Queria ir a todo lado. Conhecer tudo. Uma sede de curiosidade infindável.

Lembro-me da minha primeira viagem a Londres. Devia ter uns onze anos. Adorei. Acima de tudo, as diferenças na forma de vestir. Vi punks com cristas enormes, cabelos pintados de todas as cores, alfinetes espetados em todos os lados, correntes e um sem número de diferenças que me deixaram pasmada. Mas mais admirada fiquei por ninguém ligar puto a isso! Só imaginava aquela gente toda cá, em Portugal, a passear-se “assim” pelas ruas. Iam rodar cabeças que nem filme do Exorcista. Ali, ninguém queria saber. Gentes tão diferentes em tudo e tão indiferentes à diferença. Foi o que mais reti.

Adoro viajar. De preferência para fora da Europa, exatamente onde as diferenças culturais, raciais, sociais, religiosas, gastronómicas, etc. são mais acentuadas. A riqueza de um país são as suas gentes e o que têm de divergente.

O único rapaz de cabelo comprido do liceu foi a minha primeira paixão a sério e o meu primeiro namorado. Não combinávamos em nada e combinávamos em tudo. Ele era diferente de todos e era isso que mais me atraía. O bizarro e invulgar era o que me encantava. Quanto mais proibido e misterioso melhor.

Hoje, continuo a gostar de quem se diferencia por algum motivo. Carneirada junta em direção ao pasto verdejante não é a minha cena. Não critico quem o faz, mas eu prefiro as minorias. Fazem-me sempre querer ouvir, saber o que está por trás, que vida vibrante é aquela que pulsa à margem.

Além de que sempre gostei, e continuo a gostar, de defender aqueles que menos palmas arrecadam, os que levam porrada.

Talvez por isso tenha sido “escolhida” para ter um filho, diferente da maioria, mas tão belo e interessante de explorar. Graças a ele, outras realidades foram-me permitidas conhecer e é tão bom descobrir as infinitas possibilidades de vida que cada um é. Descobrir uma nova forma de amar.

O cérebro humano é a mais genial obra de arte alguma vez criada, a mais bela, complexa e enigmática sinfonia. O coração – a mais engenhosa e astuta poesia de amor.

Foge

Numa noite sem luar
Uma barca seguia
Por estreitos túneis
Silenciosa pelo canal
Escondida fugia

Foge, foge

Nas sombras
Funde-se
Confunde-se
Finta a fortuna

Foge, foge

Carrega o peso
Uma vida perdida
Uma alma vendida
Tenta escapar à morte
Achando que longe
Terá a sua sorte

Foge, foge

Pobre
Mal ela sabe
A corrente que a leva
Segue o curso da ruína
A meta espera-a
Vestida de luto
É lá que tudo culmina

Minha

Lisboa
Ai Lisboa que me encanta
Berço que em revolução me gerou
Num dos ricos bairros me procriou
Talvez por isso o meu coração
Tenha até hoje a cor do leão

Lisboa
Ai Lisboa que me fascina
Porto de tantas marés e caravelas
Manténs a magia das sete colinas
Do brilho prata das Descobertas
Tejo orgulhoso das cinco quinas

Lisboa
Ai Lisboa que me seduz
Com o teu cheiro de flores e de mar
Varinas vaidosas com os seus pregões
Vendedores ambulantes de castanhas
Bairros com manjerico a marchar

Lisboa
Ai Lisboa que me prende
Aos altos miradouros para namorar
Belas ameias contam uma história
Elétricos amarelos para passear
Fados vadios cheios num copo de tinto

Lisboa
Ai Lisboa do meu coração
Espelho d’água até ao Cristo
Terra da minha eleição
Jacarandás que espalham cor
Terra do poeta Luís de Camões
Abres os teus braços e recebes
Quem almeja as tuas diversões

Como não te adorar minha pura riqueza?

Leves

Nem todos os dias são leves
De sol quente a brilhar
Há dias carregados de cinza
De chuva forte que ensopa a alma

Nem todas as músicas são puras
Leves, cristalinas, clássicas
Há músicas pesadas
Acordes escuros e fortes

Nem todos os filmes são comédia
Romances leves
Que aliviam cargas e humor
Há filmes de suspense e terror

Nem todas as danças são ballet
Leves como uma pena
Suave refresco como a brisa do mar
Há danças tribais violentas

Nem sempre estamos bem
Temos Variações (como o António)
De leveza, pureza, amor e felicidade
A raiva, nervos, impotência e tristeza

Tudo normal e parte de cada um

Contudo…

Cultivemos mais dias de sol a brilhar
Com orquestra clássica de fundo
Rindo numa noite de pipocas doces
Dançando leves com a vida

Dia Mundial do Brincar

Tenho saudades de jogar à apanhada e, já agora, às escondidas, à macaca, ao elástico, ao lenço… andar de baloiço, de escorrega, saltar à corda…
Ontem, o meu filho, tocou-me e disse “estás tu”. Enquanto eu corria atrás dele, ele fugia rindo às gargalhadas. Que bem que soube.
Há poucos anos, numa festa de aniversário de um colega do meu filho do meio, pude dar asas à minha criança interior. O espaço era no meio da mata, com atividades ao ar livre como o arborismo, percursos pedestres, bancos e mesas em madeira para piqueniques, um salão para festas (com frigorífico e tudo), e uma enorme tenda de diversões insufláveis – um delírio. Ora, enquanto o puto estava na festa e brincadeira com os outros, eu e o mais novo, decidimos ir brincar também. A tenda, na altura, estava ainda vazia e claro que me deixaram andar com o menino (uma das poucas vantagens em se ter um filho “especial”).
Sapatos fora e lá fomos nós! A música rock, em alto som, invadia o espaço e dava-me ainda mais alento para os labirintos coloridos. Rastejava, saltava, dava cambalhotas, subia, descia, escorregava… Quando acabámos parecia que tínhamos saído do ginásio – a suar, mas felizes! Nem sabem o bem que me fez e a felicidade que o André teve por poder partilhar com a mãe aquelas diversões todas. Apesar, que não sei ainda quem se divertiu mais.
Devíamos poder fazer isso sempre. Restaurar as brincadeiras de infância, de vez em quando, e libertar essa energia tão boa e saudável.