Salomé

A noite era vadia, a lua baixa estava grávida, e embriagada de vinho e sangria. Os vultos ganhavam vida com a luz chamejante das labaredas. Salomé, cigana de raça e de alma dispersa, vivia como a sua saia. Vermelha, alegre, expansiva, uma roda viva. Ganhava cor e sensualidade ao dançar em torno da fogueira. Os tons quentes do fogo, o bambolear das ancas, o contorno inebriante dos braços, repletos de pulseiras douradas, chispava como as chamas, nas sombras da madrugada. As mãos eram autênticos convites à perdição. Maldita de voluptuosos seios, que pareciam querer saltar do colo e esfregarem-se nos bigodes fartos dos errantes. A barriga lisa descoberta causava raiva e inveja a todas as outras que naquela idade já acusavam os fritos e os bolos paralisados em torno do umbigo. Mas Salomé não. Cintura delgada que hipnotizava olhares alcoolizados e sedentos de devassa. O movimento aquecia o sexo masculino presente, disfarçado entre tragos, gargalhadas e cantorias. Os longos cabelos negros saltavam brilhantes e quais demónios atiçavam olhares. Os putos de buço novato ficavam rijos num instante. Tentavam disfarçar, mas pobres. Alvo de chacota, sem nada poderem fazer, riam e batiam palmas ao som da música, que ia subindo de tom, dando ainda mais ânimo aquela diaba. Era assim que a chamavam. Umas por ódio e ciúme, outros porque era a tentação em pessoa, o pecado, o inferno que queimava entre pernas. Tirava o sono a muitos, fazia sonhar outros tantos. Olhos fortes como duas castanhas a crepitar, cheios de luz, emoldurados por fartas pestanas negras; num pestanejar convencia qualquer um a fazer o que queria. E ela sabia. Corpo de menina mulher, malvada, corrompia apenas a imaginação de quem a queria. Não era de ninguém, era do mundo. Todos a desejavam, mas nenhum a possuía.

Publicado por Sara Carvalho

Chamo-me Sara Carvalho. Sou mãe de três filhos lindos, um deles com Síndrome de Down. São a minha grande paixão e inspiração para tentar ser, a cada dia, melhor. Curiosa de raíz, apaixonada pela vida e pela natureza. Adoro artes: ler e escrever - sobre os mistérios da vida, as emoções humanas, os pormenores; dançar; cantar (só para mim); cinema; espetáculos; concertos; exposições; viajar e ... sonhar com um futuro melhor. Um sonho que se transformou em objetivo: escrever um livro. Consegui! Mais sonhos? Não me faltam...

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