Não tomou a decisão de um dia para o outro. Pensou, ponderou, avaliou, chorou…
Levava anos de cansaço, das lidas da casa, do trabalho, dos filhos, do bêbedo e chato do marido… estava extenuada. Sentia-se oca, vazia, a precisar respirar, a precisar viver.
As responsabilidades infinitas; as contas intermináveis; as demandas constantes da família; os filhos sempre insatisfeitos; o homem da casa, que a traía sempre que podia; o lar que ela cuidava há anos, de manhã à noite, sem folgas. Farta de lavar, limpar, cozinhar, passar, arrumar sem que ninguém lhe desse valor. Não faziam nada e ainda reclamavam.
Rebentou.
Naquela noite, aquele moreno de cabelo comprido, em tronco nu, a tocar bateria, tocou-lhe a alma. O rock alto demais enchia o salão e o seu coração. Arrebatou-o e deu-lhe asas. Sentiu-se livre, até chegar a casa e levar uma tareia do marido. Quis morrer. O corpo não lhe permitiu. Não tinha forças nem para se matar. Se calhar, nem a coragem.
Enquanto as feridas da carne iam sarando, as do espírito iam-se tornando cada vez mais profundas.
Queria mandar tudo e todos à merda. Como?? E os miúdos? E o dinheiro que não tinha?
O moreno sussurrava-lhe: “Anda, vai ficar tudo bem. Mereces ser feliz, mereces viver”. E era isso que lhe faltava. Vivia para os outros, a vida dos outros. E a dela, onde teria ficado?
Naquela manhã fez uma única mala e saiu. Nunca mais voltou.
