A ir…

Está perto. A hora de partir vem a caminho. Já fiz as malas, levo pouca coisa. Já precisei de muito, hoje não preciso de nada. Apenas paz para ir, como um raio de luz, que desaparece lentamente à medida que o sol se põe, atrás do mar, deixando um rasto de brilho.
O manto engelhado que me cobre foi sempre a minha melhor proteção. Começou como seda fina, depois cetim, algodão, lã e por fim uma manta de retalhos que pouco me aquece mas é repleta e reflexo de vida – da minha e das que por mim deixaram marca. Dos meus amores, filhos, netos, amigos, paixões. São as manchas que me sarapintam a pele e contam histórias antes de dormir. Os sulcos são as facadas, os cortes dos vidros da existência a que sobrevivi. Os olhos, agora embaciados, foram os faróis que me guiaram e mostraram o caminho. A mente, agora perdida, fez de mim alguém que se nota. Os cabelos, outrora ondas de alcatrão, são apenas fios de neve. As coxas fortes, que te prendiam a mim, são somente uns palitos pálidos e carentes. As mãos que aconchegavam a roupa da cama, que limpavam, cozinhavam, carregavam, tratavam, acarinhavam e enxugavam lágrimas são apenas duas frágeis peneiras. As dores do corpo pesam-me no espírito. É assim. É o que o tempo nos faz. Esse maldito que nunca parou de avançar. Mas, está tudo bem. Sossega. Agora vou sem pressa. Vivi à máxima velocidade, aproveitei cada momento, viajei, fui intensa em tudo que me envolvi, amei com coração cheio, entreguei-me de alma e peito aberto, vivi à minha maneira. Vou feliz. Aguardo pacientemente. Ela deve estar a chegar, vou voltar para Ele. Não me chores, ri-te antes, quando pensares em mim. É o que desejo. Estarei sempre onde me quiseres colocar e um dia sei que nos voltaremos a encontrar.

Publicado por Sara Carvalho

Chamo-me Sara Carvalho. Sou mãe de três filhos lindos, um deles com Síndrome de Down. São a minha grande paixão e inspiração para tentar ser, a cada dia, melhor. Curiosa de raíz, apaixonada pela vida e pela natureza. Adoro artes: ler e escrever - sobre os mistérios da vida, as emoções humanas, os pormenores; dançar; cantar (só para mim); cinema; espetáculos; concertos; exposições; viajar e ... sonhar com um futuro melhor. Um sonho que se transformou em objetivo: escrever um livro. Consegui! Mais sonhos? Não me faltam...

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