Era uma vez uma família…

Esta é apenas mais uma história banal, como tantas outras, que podia começar com:

Era uma vez… uma família normal em que o casal trabalha fora de casa, sustenta e educa dois ou três filhos e está casado por mais de uma década. Os desentendimentos sobre a educação dos menores já se instalou há muito, a paixão do início foi-se, as contas, o cansaço e as responsabilidades do dia queimam o desejo da noite. Ele fica quase sempre no sofá a ver todos os resumos e programas desportivos ou séries; ela vai para a cama com o seu livro ou navegar pelo Facebook. Espera que ele apareça mas, entretanto, adormece. De manhã, recomeça tudo. Despachar, vestir, comer, levar os miúdos, trabalhar, passar no supermercado, ir buscar os filhos ao ténis, à natação, à explicação, fazer o jantar… Dividem-se tarefas. São uma pequena empresa de gestão familiar. O afastamento físico é cada vez maior, assim como as discussões. Os dias vão passando. Ele começa a jogar à bola com os colegas duas a três vezes por semana (antes era só uma); ela começa a combinar jantares com as ex-colegas da faculdade, a maioria divorciada. Ele passa a trabalhar até mais tarde e tem muitas reuniões; ela agarra-se às redes sociais e começa a falar com alguns amigos que vai conhecendo. O abismo entre os dois é cada vez maior e todas as tentativas e investidas que ela toma parecem vir tarde demais e não surtirem grande efeito. Percebe que ele anda mais bem arranjado, mais cheiroso e bem disposto – longe de casa. Ela fica cada vez mais sobrecarregada com as tarefas domésticas e a administração do lar. Dá sinais de fadiga e depressão. Chora por tudo e por nada. Revive as fotografias do casamento e mostra-lhe enquanto diz com voz meiga: “lembras-te?” Ele anui com um sorriso e faz-lhe uma festa no rosto. Vira costas e sai.

Como é que esta história acaba? Depende.

Primeiro, os filhos. Há que manter a estrutura familiar e aparentar que tudo está bem para que estes cresçam felizes numa família estruturada (será mesmo?); segundo, ou talvez primeiro, o medo da mudança. Como abandonar uma situação familiar e partir para uma totalmente desconhecida que, ainda por cima, não é socialmente bem vista? Terceiro, quarto, quinto… depende da autonomia financeira de cada um dos cônjuges; da (in)dependência emocional; da idade; da capacidade de adaptação ao “morno”; do peso que as famílias e os amigos têm no casal e outros fatores que são inerentes a cada ser humano – que é totalmente diferente de outro -; das tentativas que ambos estão dispostos a fazer para regressarem ao passado ou de acabarem por se acomodar e até se sentirem confortáveis nesse registo. Existe ainda a possibilidade de se querer constituir família com outra pessoa, que entretanto ganhou relevância. Há finais para todos os gostos.

O melhor? Bom, o ideal é não deixar que a relação chegue a esse ponto. Claro que tem de existir um esforço conjunto; unilateral não chega. Perceberem que, todos os dias, ambos têm de trabalhar nessa relação com demonstrações frequentes de carinho, amor, respeito, consideração e perdão mútuo. Fazer amor, foder, conversar, partilhar conquistas, desafios e receios. Fazer daquela pessoa a melhor amiga e não um inimigo com quem tem de se competir para um lugar de destaque. Não cair na rotina. Planear programas diferentes a dois. União numa mesma direção. Prevenir antes de ter que remediar.

Publicado por Sara Carvalho

Chamo-me Sara Carvalho. Sou mãe de três filhos lindos, um deles com Síndrome de Down. São a minha grande paixão e inspiração para tentar ser, a cada dia, melhor. Curiosa de raíz, apaixonada pela vida e pela natureza. Adoro artes: ler e escrever - sobre os mistérios da vida, as emoções humanas, os pormenores; dançar; cantar (só para mim); cinema; espetáculos; concertos; exposições; viajar e ... sonhar com um futuro melhor. Um sonho que se transformou em objetivo: escrever um livro. Consegui! Mais sonhos? Não me faltam...

9 opiniões sobre “Era uma vez uma família…

  1. Olá Sara um casamento blindado existe, mas para esse casamento blindado funcionar tem de colocar em prática, introspecções, diárias para o fortalecimento da ligação na Relação Orgulho, sentimentos negativos, mágoas tudo tem de ter equilíbrio, Inteligência Mental assim sim, pode chegar Amor Verdadeiro para preencher o Coração 💖 no Presente no Agora

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  2. Muy buena descripción de una realidad muy palpable en nuestros días. Ante todo, lo que más daña es la rutina, la falta de respeto y empatia. Y como bien dices entre todos los quehaceres, muchas veces se pierde el rumbo. Qué sé es, “ante todo pareja”. No se donde, leí un cartel que decía: “Creía nuestro hogar apagado, revolví las cenizas y me queme las manos”. Muchas parejas, no se dan cuenta de esto y buscan cambios. Y a decir verdad por lo que he vivido, la experiencia me dice: escoba nueva barre siempre bien… pero por un tiempo. Abrazos

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