Foge

Numa noite sem luarUma barca seguiaPor estreitos túneisSilenciosa pelo canalEscondida fugia Foge, foge Nas sombrasFunde-seConfunde-seFinta a fortuna Foge, foge Carrega o pesoUma vida perdidaUma alma vendidaTenta escapar à morteAchando que longeTerá a sua sorte Foge, foge PobreMal ela sabeA corrente que a levaSegue o curso da ruínaA meta espera-aVestida de lutoÉ lá que tudo culmina

Minha

LisboaAi Lisboa que me encantaBerço que em revolução me gerouNum dos ricos bairros me procriouTalvez por isso o meu coraçãoTenha até hoje a cor do leão LisboaAi Lisboa que me fascinaPorto de tantas marés e caravelasManténs a magia das sete colinasDo brilho prata das DescobertasTejo orgulhoso das cinco quinas LisboaAi Lisboa que me seduzCom oContinue a ler “Minha”

Leves

Nem todos os dias são levesDe sol quente a brilharHá dias carregados de cinzaDe chuva forte que ensopa a alma Nem todas as músicas são purasLeves, cristalinas, clássicasHá músicas pesadasAcordes escuros e fortes Nem todos os filmes são comédiaRomances levesQue aliviam cargas e humorHá filmes de suspense e terror Nem todas as danças são balletLevesContinue a ler “Leves”

Dia Mundial do Brincar

Tenho saudades de jogar à apanhada e, já agora, às escondidas, à macaca, ao elástico, ao lenço… andar de baloiço, de escorrega, saltar à corda…Ontem, o meu filho, tocou-me e disse “estás tu”. Enquanto eu corria atrás dele, ele fugia rindo às gargalhadas. Que bem que soube.Há poucos anos, numa festa de aniversário de umContinue a ler “Dia Mundial do Brincar”

Tempo

Pior que dias intermináveisSão as noites sem fim Os minutos em que não te oiço respirarOs segundos da tua ausência perdidaA cama que não aqueceAs horas que se espreguiçam sem tiBebo um copo de vinhoPreciso de calorQuero aliviar o tempoQue teima em se demorarInsiste em marcar o compassoAgarro num livroApareces a espreitar entre cada linhaSopro-teRecomeçoSaltasContinue a ler “Tempo”

Poesia da alma

Olhos fechadosAguardavaA música ia chegandoAos poucos enchia a pistaSubindo sem pressa Começava a sentir-lhe a invasãoQue a ia despindoDos olharesDos julgamentosDas tensõesDos outrosDa vidaDe si mesmaLargava tudo no chãoDançava com almaSorriso largadoRitmo intensoCada poroCada fração de peleCada músculoCada ossoCada fio de cabeloEra possuído Notas apaixonadasEnamoradasEram uma sóTocava-lhe o serAlma e melodia juntasNo recintoNo sangueQue lheContinue a ler “Poesia da alma”

Quem?

Apenas um soproE tudo que és já eraLutas em vãoGuerreiros da féSoldados de sangueDestinados à nascençaSem eira nem beiraOrdens de meia dúziaQue ceifam milhões E foste quem? Ninguém se lembraPoeira no desertoRevirada e enterradaCom os ventos da revoltaUma causa?Paixão ou obrigaçãoBandeira rasgadaPolítica ou religiãoDor espalhadaFamílias sem tetoCrianças sem pão Porquê? Se és apenas uma partículaNuvemContinue a ler “Quem?”

Quieto!

Por quanto tempo se consegue domar um coração?Dizer-lhe o que sentirSim, porque ele só sente O cérebro ordena-lhe:QuietoFicaSentaDeitaEle obedeceOrelhas murchasFocinho pousado nas patasOlhos semi-cerradosCorpo inerteSó lhe sentimos vidaNo serpentear da cauda –O batimento pulsado De repenteUm barulhoUma orelha no arUm movimentoJá levantou a cabeçaUma bolaJá correVai desenfreadoLíngua à bandaRabo a bater em tudo por ondeContinue a ler “Quieto!”

Sexo

Gosto de sexo. Não vou mentir. Não vou dizer que foi pelo dinheiro, não. Foi pela diversão, pela adrenalina e excitação. Pelo novo e proibido. Saborear o perigo de caminhar na linha do comboio. Provar novas sensações. Viver fora dos limites. Beber o licor da liberdade. Claro que, entretanto, fiquei viciada no cheiro das notas.Continue a ler “Sexo”