Livros amigos

Acredito que este sentimento não seja só meu. Corrijam-me se estiver enganada.

O que sentimos quando terminamos de ler um livro, onde morámos durante dias, semanas ou meses? Viajámos com aquelas personagens, sustemos a respiração por elas, lemos sofregamente para ver o que acontecia a seguir ou saboreámos lentamente aquele repasto sem querermos que terminasse. Mas quando acaba… parece que um vazio se instala no peito, sentimos uma saudade antecipada por um amigo que se foi. Perdemos um bocadinho de nós. Temos de fazer um certo luto antes de nos entregarmos ao próximo. Deixar a memória repousar, respeitar aquela perda. 

Sentimento semelhante também me acontece quando andamos enamorados de uma série. Quando ela acaba, fica um buraco no peito.

É mesmo assim, não é? Ou sou só eu?

Foto por fotografierende em Pexels.com

A culpa é do Mercúrio

Há alturas na vida em que parece que nada corre bem ou parece estar simplesmente estagnado como água podre numa poça, que só atrai mosquitagem. Alturas em que tudo nos chateia e em que tudo o que não presta é atraído, qual íman, a nós. Dizem que a culpa é do Mercúrio que está retrógrado. Não sei. Sei que ninguém tem paciência para nos aturar assim, nem nós mesmos! Todos se afastam da água sebosa e nojenta, mas todos têm essas “crises”. Se não têm, não são humanos. Diz-se que quem não sente não é filho de boa gente. Eu sei que sou filha de boa gente e o problema, às vezes, é sentir demasiado. É ver demasiadas notícias, é ficar demasiado tempo fechada em casa, é querer ver a resolução de certas coisas que não dependem de mim. 

Era bom ter sempre palavras bonitas e de incentivo para dizer, sim era. Não seria normal mas é o que se espera. Azar, sou humana. Não tenho sempre textos e poesias de elevação espiritual, de ânimo e confiança. Não tenho sempre um arco-íris pronto a saltar do bolso. Costumo ter. Tipo, 330 dias por ano. Depois, há os outros que escapam. É giro ver quem fica nesses. Mas a culpa não é minha, nem de ninguém. Dizem que é do Mercúrio e que é normal tal acontecer três ou quatro vezes por ano. Dizem que é a altura para desacelerar, para repensar, revisar… Mais ainda Mercúrio?!

(Apesar de ter escrito este texto hoje, hoje foi um dia top👌🏻)

Finjo (não) ver

Finjo não saber

Para não ter de sentir

Prefiro não ver

Para não me incomodar

Fujo de ouvir

Para não me importunar

Escolho viver longe daqui

Mudo-me para outra realidade

Esta é insuportável

Prefiro sonhar

Escolho escrever

E de tudo me abstrair

Nada posso fazer

A verdade magoa

A inércia também

A injustiça impera

E a impotência é mãe

Justiça?

Pode alguém ser condenado por procurar a felicidade?

Pode alguém ser exultado por permanecer em sofrimento?

Pode alguém ser julgado pelas suas decisões?

Pode alguém ser valorizado por manter a capa do fingimento?

Pode alguém ser apartado por ser quem é?

Pode alguém ser louvado por mostrar o que não é?

Pode haver justiça entre injustos?

Perdi-te

Olhei em volta e não te vi

Procurei-te, mas já não estavas

Desapareceste

O que será de mim?

Não te dei ouvidos

Desvalorizei os sintomas

Ignorei os conselhos

Achei que eras minha

Deduzi que nada te faria ir

Não escutei

Não observei

Calculei que ali ficarias

Peça de arte

Parte da decoração

Eras garantida

Um dado adquirido que não nos pode ser tirado

Mas foste

Quando fui ver já não estavas

Descurei-te

Não percebi o que falavas

Achei que era apenas a tua imaginação

Voos de uma mente de poeta

Afinal não

Desvalorizei-te

Subestimei o que dizias

Fechei os ouvidos aos gritos

Ignorei as discussões

Tudo passa, pensei

Voltamos sempre ao que éramos

Mas não, não voltámos

Tu foste e contigo levaste o meu coração

Não tens culpa

Hoje sei

Agora irei empenhar-me

Não contigo, não voltas

Talvez com outro alguém

Que me volte a amar

Nova realidade

Não tenho por hábito escrever ou pronunciar-me sobre assuntos capazes de levantar polémica. Falar de futebol, religião, política, preferências partidárias, preferências sexuais, côr, nacionalismo, etc. Também prefiro não falar de certos conteúdos que, por si só, já são chatos, incomodam. Aqueles que, habitualmente, somos bombardeados diariamente nas notícias, no grupo de amigos, no café, no cabeleireiro, no consultório e por aí. Assuntos pesados, chamemos-lhes assim. A morte, a injustiça, as doenças, a falta de apoios, o roubo dos governantes, o abuso de poder, a saúde precária, os impostos – são temas que causam celeuma e urticária. São questões que dividem e causam discussões porque são passíveis de várias interpretações e sentimentos difusos. Mas, de todas estas, há uma que nos assola e mesmo sendo a nível mundial continua a dividir e não devia. Devíamos estar unidos. Devíamos zelar uns pelos outros. Devíamos cuidar de nós. O amor ao próximo é isso mesmo. É pensar no outro, é preocupar-se, é fazer o melhor para ajudar e se não podermos ajudar, ao menos que não prejudiquemos.

Já existiram várias pestes, pragas, vírus e pandemias ao longo da história, mas num passado recente, com esta dimensão e duração, com os avanços existentes na medicina e indústria farmacêutica, esta caiu como uma bomba inesperada. Apesar de que já existiam alguns estudos, previsões e avisos acerca do tema.

Obrigou-nos a isolar, a parar tudo, a suspender as nossas vidas. Ninguém gosta de ser forçado a nada. Mesmo aqueles que já viviam praticamente em isolamento agora querem sair para a rua porque “ninguém manda em mim!” E este tipo de sentimento já vem do berço. Quando se diz a uma criança para não carregar naquele botão ou não mexer naquele armário é quando mais depressa ela lá vai. Pois é, mas neste caso, ao fazermos o que nos apetece podemos estar a colocar, além da nossa, a vida de alguém em risco. E isto é muito grave. Toda a gente tem família, amigos, vizinhos, conhecidos. E se uma dessas pessoas adoece ou morre porque fizemos o que nos deu na real gana?

Vou contar uma história de alguém que conheço. A senhora, na casa dos quarenta, foi um dia almoçar com uma amiga. A amiga estava assintomática e não sabia ser portadora do coronavírus. Sem querer, pegou à amiga nesse almoço. Nenhuma das duas sabia e no dia seguinte a senhora foi ter com a mãe e transmitiu-lhe, sem saber (claro!), o vírus. A mãe faleceu. Ela continuou assintomática. Pode ter sido coincidência? Pode. Mas acham que a filha pensa que foi? Ou vai se culpar pelo resto da vida por ter ido àquele almoço?

Todos nós devemos pensar bem antes de fazer algo do qual nos possamos arrepender. Não devemos descurar os conselhos de quem sabe, de quem está à frente da situação e de quem, acima de tudo, arrisca a vida diariamente para tratar de uma série de gente desconhecida que lhes vai parar às mãos, entre a vida e a morte. Pessoas que escolheram uma profissão em que ajudar o próximo é o seu lema de vida. E, muitas vezes arriscam a delas e a das suas famílias também. Pessoas que já quase há um ano lidam com esta situação caótica. Pessoas que têm de escolher quem salvam e quem deixam morrer. Já se puseram nesse lugar? E se fossemos nós a estar debaixo daquela quantidade de batas, proteções, máscaras, carapuços, botas etc., a trabalhar em condições de stress em que têm de fazer o papel de deuses? Como será que estaríamos? Se calhar iríamos preferir estar trancados em casa! Eles se calhar preferiam. Já viram a responsabilidade que recai sobre eles? E sobre nós? Será que não recai nada? Claro que sim!

Vamos deixar de ser irresponsáveis, de só olhar para o nosso belo e saudável umbigo e perceber que não acontece só aos outros. Pode acontecer a qualquer um. Desportista ou não, fumador ou não, velho ou novo, homem ou mulher. Ninguém sabe. Mas todos sabemos uma coisa – cabe a cada um ser responsável, por si e pelos outros. Temos esse dever para com todos, porque todos somos um único global e o que fazemos em termos individuais irá sempre refletir-se no todo.

Protejam-se. Ocupem-se. Aproveitem para fazer coisas que gostavam de fazer mas não tinham tempo – aprendam a cozinhar aquele prato, leiam aquele livro, pintem, escrevam, exercitem-se, toquem um instrumento, façam um puzzle… Cuidem de vocês, da vossa saúde física e mental. Cuidem dos próximos. Orem. Confiem. Respirem fundo. Relaxem. Oiçam o silêncio. Tudo passa. Não há mal que sempre dure.

Mudanças

A grande maioria de nós, seres humanos, não gosta de mudanças, de alterações, do desconhecido. Já eu… Aflige-me estagnar, manter, rotinar, parar e não aproveitar o que há de bom em mudar. Quebrar rotinas, experimentar, saltar e ver no que vai dar.

Também já tive medo. Medo de falhar, medo de arriscar, de lutar, de mandar tudo ao ar… Agora não. Já não tenho. Acredito, confio, espero e desfruto.

Custou-me mais ficar apegada, agarrada a coisas, pessoas, situações, do que todas as mudanças que fiz. Perdi mais em ficar do que em arriscar, em mudar.

Com a mudança ganha-se vida, ganha-se alento, renascemos, crescemos, limpamos, renovamos e largamos amarras, pensamentos, escolhas e circunstâncias nas quais já não nos encaixamos e, por isso, surgem as oportunidades de modificação. Muitos, por nunca o fazerem, chega o dia em que são obrigados. E, normalmente, é mais doloroso.

Mas, sim, é preciso coragem. É preciso tê-los no sítio, em muitas ocasiões, para se conseguir chutar o balde. Lançá-lo ao ar e ver, muitas vezes, o olhar aterrorizado daqueles que nos rodeiam e pensam: “Louca! E agora, o que vai ser dela?” E aí ela renasce, reencontra-se, purga-se e dá a volta por cima, apresentando-se depois melhor que antes.

Claro que, pelo meio, existem danos colaterais. Existem sempre. Nem sempre é fácil fazermos escolhas. Não é fácil largar o cómodo acomodado, o conforto do conhecido e partir, sem nada, em busca da eterna felicidade no desconhecido, no incerto. Só aqueles que na loucura o sentem na pele e, mesmo com medo, arriscam. E fazem muito bem porque o resultado é ficar-se melhor, mais feliz, mais realizado, mais forte, mais sábio, mais experiente e com mais certezas de que nada é certo, nada é garantido, mas nada é melhor que arriscar para sentir, de facto, o que é ser vivido.

Estar vivo é isto. É sair da zona de conforto e testar-se. Ver do que se é capaz. Ver como se safa. Estar em constante mutação, não estagnar. Correr atrás dos sonhos.

Arrisca! Quem sabe se voas.

Celebremos!

Celebremos!

A vida

O amor

A família

Os amigos

A saúde

O emprego

A sanidade mental

O bem-estar físico

A natureza

O Criador

As conquistas

Os fracassos

As metas

Os caminhos

As imperfeições

Os sonhos

Celebremos!

Tudo o que somos

Tudo o que fomos

Tudo o que seremos

Porque são todas as partes que fazem o todo único, rico e maravilhoso que somos!

Agradeçamos pelo todo ou pelas partes.

Celebremos estarmos vivos!

Let it go

Deixar ir o velho para o novo receber.

Largar o passado e abraçar o presente.

E o melhor presente que temos é a vida que nos foi concedida.

Aproveitá-la é dever para podermos ter uma vida feliz.

Libertar o que nos carrega é imprescindível para criar espaço a novas vivências. 

Acreditar num futuro melhor, com fé, move-nos, mas não sejamos utópicos. Há coisas que nunca mudam. Mudemos nós aquilo que nos incomoda e está nas nossas mãos e aceitemos aquilo que somos e que não podemos mudar, com amor. 

Naquilo que pudermos, ajudemos o próximo. Não esquecer que há mais felicidade em dar do que há em receber.

Que continuemos humildemente a aprender, a crescer e sejamos gratos pela prenda maravilhosa que temos – o presente!

Feliz ano novo!

E dormir, não?

Tenho inveja. Invejo os que se deitam e ainda os lençóis não estão quentes já o comboio assobia avançando para novas estações.

Eu fico parada. Espero que um novo comboio carregadinho de sono apareça. Aguardo muda e quieta. Tento não me mexer para não o espantar. Observo o enorme relógio da estação que me mantém alerta ao passar do tempo. Vejo, ao longe, denso fumo e penso que é desta. Quando, no escuro, a visão clareia percebo que é um daqueles rápidos que não param. Uma ventania revolta-me os cabelos e as palavras que se iam arrumando no meu cérebro. Agora estão soltas num remoinho frenético. Tento ajuntá-las, arrumá-las e aquietar a mente para receber o sono.

Lá me encosto de novo no banco das almofadas e espero. Já o convidei faz tempo e nada!

Vejo de novo, ao longe, nuvens de cinza. O coração dispara de esperança. O comboio abranda e finalmente consigo entrar. Encosto-me, certa que o embalo me fará adormecer e poderei descansar. Assim que relaxo as pálpebras, sou surpreendida por uma acervada agitação. Estupefacta percebo que é um comboio em completa celebração.

Todos reunidos, em grande paródia, cantam, dançam, comem, bebem, riem e divertem-se. Sou a anfitriã e não sabia! Rio-me com a situação. Era uma festa surpresa. Conformo-me e permito-me festejar.

Um dia ainda consigo apanhar o comboio da meia-noite.