Leves

Nem todos os dias são leves
De sol quente a brilhar
Há dias carregados de cinza
De chuva forte que ensopa a alma

Nem todas as músicas são puras
Leves, cristalinas, clássicas
Há músicas pesadas
Acordes escuros e fortes

Nem todos os filmes são comédia
Romances leves
Que aliviam cargas e humor
Há filmes de suspense e terror

Nem todas as danças são ballet
Leves como uma pena
Suave refresco como a brisa do mar
Há danças tribais violentas

Nem sempre estamos bem
Temos Variações (como o António)
De leveza, pureza, amor e felicidade
A raiva, nervos, impotência e tristeza

Tudo normal e parte de cada um

Contudo…

Cultivemos mais dias de sol a brilhar
Com orquestra clássica de fundo
Rindo numa noite de pipocas doces
Dançando leves com a vida

Dia Mundial do Brincar

Tenho saudades de jogar à apanhada e, já agora, às escondidas, à macaca, ao elástico, ao lenço… andar de baloiço, de escorrega, saltar à corda…
Ontem, o meu filho, tocou-me e disse “estás tu”. Enquanto eu corria atrás dele, ele fugia rindo às gargalhadas. Que bem que soube.
Há poucos anos, numa festa de aniversário de um colega do meu filho do meio, pude dar asas à minha criança interior. O espaço era no meio da mata, com atividades ao ar livre como o arborismo, percursos pedestres, bancos e mesas em madeira para piqueniques, um salão para festas (com frigorífico e tudo), e uma enorme tenda de diversões insufláveis – um delírio. Ora, enquanto o puto estava na festa e brincadeira com os outros, eu e o mais novo, decidimos ir brincar também. A tenda, na altura, estava ainda vazia e claro que me deixaram andar com o menino (uma das poucas vantagens em se ter um filho “especial”).
Sapatos fora e lá fomos nós! A música rock, em alto som, invadia o espaço e dava-me ainda mais alento para os labirintos coloridos. Rastejava, saltava, dava cambalhotas, subia, descia, escorregava… Quando acabámos parecia que tínhamos saído do ginásio – a suar, mas felizes! Nem sabem o bem que me fez e a felicidade que o André teve por poder partilhar com a mãe aquelas diversões todas. Apesar, que não sei ainda quem se divertiu mais.
Devíamos poder fazer isso sempre. Restaurar as brincadeiras de infância, de vez em quando, e libertar essa energia tão boa e saudável.

Tempo

Pior que dias intermináveis
São as noites sem fim

Os minutos em que não te oiço respirar
Os segundos da tua ausência perdida
A cama que não aquece
As horas que se espreguiçam sem ti
Bebo um copo de vinho
Preciso de calor
Quero aliviar o tempo
Que teima em se demorar
Insiste em marcar o compasso
Agarro num livro
Apareces a espreitar entre cada linha
Sopro-te
Recomeço
Saltas por cima de uma vírgula
Ajeito o cabelo
Respiro fundo
Bebo mais um gole
Olho o relógio
Só passou um minuto
Puxo o cobertor felpudo
Preciso de conforto
O que me darias …
caso estivesses presente
Aninho-me mais
Regresso ao meu fiel companheiro
Uma palavra comum
Traz-te de volta à tona
Ali ficas a boiar e a mirar-me
Fecho o volume
Arraso com o líquido
Espreito os números vermelhos
Apenas um dígito a mais
Enrosco-me melhor
Descanso os cílios
Deixo-me levar pelo sol interno
Já sinto aquecer-me
Pode ser que dormindo
Sonhe contigo
E quando acordar
Os ponteiros tenham sido misericordiosos
E te trazido para junto de mim

Amo-te

Saudades quando te tinha bebé. Sentir o teu cabelo fininho, suave, que aspirava a cada inspiração, a tua cabecinha macia, o teu corpo ainda tão frágil. Ali, junto a mim, éramos um só. Ali, repousavas descansado. Sabias que não viria nenhuma bata branca raptar-te, nenhum exame ou inspeção, nenhuma seringa de agulha em riste para te fazer chorar. Sentias-me e sabias que estavas protegido. Podias entregar-te livremente ao sono. E eu adorava. Ficava que tempos acordada a ver-te, a ouvir-te, a sentir a tua paz que era, também, a minha. A melhor parte do meu dia era poder respirar-te, à noite. Envolver-te nos meus braços, inebriar-me com o teu cheiro, encher-te de beijos e festas, ter-te rendido só para mim. Fôlego profundo, desmaiado nos lençóis da felicidade, em total conforto.
Nove anos passaram e pouco mudou. Agora beijo-te, abraço-te, conto-te uma história rápida e agradeço, em oração, enquanto te aconchego a roupa da cama. Mas o nosso momento persiste. De manhã, quando o sol se levanta, vens pé ante pé no escuro e apenas com a minha benção te infiltras no quente ninho. Trocamos mimos e, em pouco tempo, pegas de novo no sono. Mais uma vez, tranquilo, seguro, em paz. E eu… eu fico ali, quieta, só a sentir a tua presença. É que, sabes, ela faz parte de mim.
Sou o teu corpo seguro e tu o meu farol na escuridão.

Poesia da alma

Olhos fechados
Aguardava
A música ia chegando
Aos poucos enchia a pista
Subindo sem pressa

Começava a sentir-lhe a invasão
Que a ia despindo
Dos olhares
Dos julgamentos
Das tensões
Dos outros
Da vida
De si mesma
Largava tudo no chão
Dançava com alma
Sorriso largado
Ritmo intenso
Cada poro
Cada fração de pele
Cada músculo
Cada osso
Cada fio de cabelo
Era possuído

Notas apaixonadas
Enamoradas
Eram uma só
Tocava-lhe o ser
Alma e melodia juntas
No recinto
No sangue
Que lhe corria a ferver
Turbulento

Para quem reparava
-Impossível não ver –
Personificação da
felicidade pura a romper

Quem?

Apenas um sopro
E tudo que és já era
Lutas em vão
Guerreiros da fé
Soldados de sangue
Destinados à nascença
Sem eira nem beira
Ordens de meia dúzia
Que ceifam milhões

E foste quem?

Ninguém se lembra
Poeira no deserto
Revirada e enterrada
Com os ventos da revolta
Uma causa?
Paixão ou obrigação
Bandeira rasgada
Política ou religião
Dor espalhada
Famílias sem teto
Crianças sem pão

Porquê?

Se és apenas uma partícula
Nuvem passageira
Que com a brisa se vai

Quieto!

Por quanto tempo se consegue domar um coração?
Dizer-lhe o que sentir
Sim, porque ele só sente

O cérebro ordena-lhe:
Quieto
Fica
Senta
Deita
Ele obedece
Orelhas murchas
Focinho pousado nas patas
Olhos semi-cerrados
Corpo inerte
Só lhe sentimos vida
No serpentear da cauda –
O batimento pulsado

De repente
Um barulho
Uma orelha no ar
Um movimento
Já levantou a cabeça
Uma bola
Já corre
Vai desenfreado
Língua à banda
Rabo a bater em tudo por onde passa
Desarruma-nos outra vez
E lá vamos nós:
Quieto
Fica
Senta
Senta
SENTA
Desta vez é que é
Dominámos o bicho
Qual quê?!
Chega o miúdo e lá sai ele
Desembestado
Derrubando tudo de novo

Assim é o coração

Quem consegue domar
quem livre e selvagem nasceu?
Quem nada pensa e tudo sente

Sexo

Gosto de sexo. Não vou mentir. Não vou dizer que foi pelo dinheiro, não. Foi pela diversão, pela adrenalina e excitação. Pelo novo e proibido. Saborear o perigo de caminhar na linha do comboio. Provar novas sensações. Viver fora dos limites. Beber o licor da liberdade. Claro que, entretanto, fiquei viciada no cheiro das notas. Não passo sem o que elas me proporcionam.
Tudo começou com uma brincadeira, pouco inocente, regada com muito vodka. A minha colega de faculdade e o namorado quiseram brincar e filmar – um vídeo caseiro. Gostámos. Continuámos. Sem saber bem como, os vídeos foram divulgados e os convites começaram a surgir. Corpos jovens, nus, belos, que divertidos dançam alheios a olhares indiscretos. Os pedidos e as fantasias cresciam assim como o nosso desejo por mais. O dinheiro reproduzia-se e novas propostas surgiam em cima da cama. Lençóis brancos, puros como a neve, transformavam-se em masmorras devassas, tornando cativos todos os que lá tropeçassem.
As festas VIP, o champanhe, os vestidos de lantejoulas, os sapatos Louboutin, as malas Louis Vuitton, as joias que reluzem, os perfumes franceses, a maquilhagem de Nova Iorque, o cabeleireiro das atrizes, os SPA’s que amaciam a pele com óleos (e apagam todas as impressões digitais), os restaurantes da moda, as discotecas mais concorridas, a cocaína, o Personal Trainer que incha os glúteos e chapa a barriga, os implantes de silicone, as injeções de botox… tudo tem um preço – alto. E eu… eu acostumei-me a tudo isso.
É como uma escada que vamos subindo e não queremos descer, queremos continuar até chegar ao topo. Não dizem que o céu é o limite? No entanto, está invertido. O céu é afinal o inferno. A liberdade que existia no patamar da escadaria foi-se. Agora somos reféns – de nós próprias, dos vícios, da roda imparável do sexo, dos luxos e da podre alta(mente) sociedade. Bens materiais, Instagram e outras futilidades afins passam a controlar um estatuto, uma capa, uma aparência. Uma inocência perdida para sempre, gravada e espalhada por todo um mundo ávido de prazeres obscuros. Obrigações que enchem as noites, outrora de prazer… agora – dever.

Emoções

Tranquila como uma floresta
Por dentro um fogo que arde

Nem sempre o rio corre tranquilo
Nem sempre o mar está calmo
Nem sempre os dias são de sol a brilhar
Nuvens, chuva, trovoada e tempestade
Fazem parte da natureza e do ser humano
Aceita e permite que assim seja

Podes trovejar
Há quem mereça ouvir o teu rugido
Podes ignorar
Há quem mereça o teu desprezo
Podes te afastar
Há quem não mereça a tua presença

Não deixes, no entanto
Que esse fogo se espalhe
Por ti, por outros, por quem não é digno
Não te deixes inflamar pelas chamas que pontualmente surgem
A seguir ao temporal deve voltar o céu limpo
O brilho do astro-rei deve aquecer
As águas do caudal acalmarem-se

Aquieta-as, controla-as
Sê o mestre da tua embarcação

Sem ti

Como viveria eu sem ti?
Alma errante abandonada
Triste em tudo seria

Existir sem respirar
Acordar sem luz do sol
Adormecer sem estrelas
Uma praia sem mar
Um deserto sem areia
Uma floresta queimada
Um campo sem flores

Ver sem cor
Cheirar sem olfato
Tatear sem sentir
Saborear sem paladar
Ouvir um mudo

Como viveria eu sem ti?
Tu que és oxigénio
Tu que iluminas os meus dias
Tu que me embalas as noites
Tu que és as ondas da maré
O oásis no ermo
O guarda verde florestal
O prado colorido e perfumado

És o arco-íris que me encanta
O perfume mais inebriante
O arrepio da pele
O céu da minha boca
A melodia dos meus ouvidos

És a minha terapia
Amiga
Confidente
Alegria
Coração que transborda
Ânimo da alma
O movimento dos meus pés
O ondular das minhas ancas
A vibração dos meus ombros
O ritmo que me guia
O pulsar da minha vida

És tudo, tanto e mais
És uma obra prima
Uma oferta divina
Viver sem ti, não, eu não poderia