Segue em frente

O gira-discos marcava o compasso da vida
Melodia para dançar em brilhante vinil
Por vezes riscado ali permanecia
Como nós que por vezes empancamos numa situação e ali ficamos até que alguém levante a agulha e avance
Momentos que nos travam e mantêm cativos numa espiral de ruído desnecessário
Nem sempre se dá o salto sozinho, por vezes é necessária ajuda externa
Há que pedi-la nesse caso
Não adianta ali ficarmos numa repetição sem fim
Mover em frente mesmo sem adivinhar os próximos riscos que virão
Assim é a vida que gira e segue sem parar
E nós, ficamos lá a remoer ou avançamos com ela?

Pensa

PENSA

Como me tratas
Como te afastas
Como mentes
Como te fechas
Como me ignoras

PENSA
No que fazes
No que dizes
No que sentes
Como vibras
Como falas
Como ages

PENSA
Podes magoar
Podes matar uma relação
Às vezes nem precisas falar
A tua expressão corporal
comunica por ti
Do que te vai dentro

PENSA
Será por isso
que ficarás conhecido
Pela mentira
Pela inveja
Pela conspiração
Pela raiva
Pela indiferença
Pelo azedume

PENSA
É isso que queres?
O que fizeres
Será a tua marca
O que és
É como te veem
Mais cedo ou mais tarde
A farsa é descoberta
O pano cai
O verniz estala
Ninguém te vai querer por perto
O que dás a ti retorna
Bom e mau

PENSA

Medo

A margem ora se afigurava perto,
ora longe demais
Embalada pela suave melodia do rio
observava distante o que se queria na pele
Mas… aquele sentimento paralisava-a
Tolhia-lhe cada músculo
Ali permanecia
Desejando um milagre para que tudo acontecesse

Nada

Aquela mancha escura no peito crescia e alastrava-se
Castrava-a
Quanto mais desejava ir
mais inerte ficava
Imaginava a vida no outro lado
Fantasiava um novo mundo
O medo impedia-a de experimentar os desejos da alma
A dúvida de um novo amanhã
mantinha-a cativa num hoje mais que passado
Queria que um vento forte a arrebatasse
E a levasse sem escolhas
para a outra orla
Onde os montes e vales são mais verdes
Onde o sol brilha todo o dia
Onde a felicidade é o ar que se respira
e a sombra fresca o júbilo que acalma

Ali ficava, à distância, a observar
Tricotando em vida
Tudo que conseguia sonhar
Quisera matar o medo e ir
Mas a lama prendia-lhe os pés
Agrilhoava-a em mágoas movediças
Não a deixava ser feliz

Está já ali,
na outra banda
Onde as margens brilham viçosas

Até quando

Acordaste cinza profundo
Carregado de pedra
Envergonha-nos

Respeito impões
Se nos decidires calar
Explodes em trovões

Quantas serão as preces
Que ecoam no vazio
Quanto será o sangue
Das dores derramadas
Das vidas vencidas
Engoles as espessas almas
Que acima se entregam
Que pelo ódio perderam o ser
Os curvados pelo peso que carregam

O pano estende-se
Chuva brumosa
Paira imóvel
Salpicos de amor
Dispersos pelo vento
Que poliniza o escuro
Com gotículas de cor
Semeando contra a negra maré
Esperança, paz, bondade e fé

!

Cansei-me
Cansei de cansar-me
De esperar
Que tudo mudasse
E nada
Nada se alterava
As cores cinza
Sempre iguais
Os dias incansavelmente monótonos
As noites claras demais
O ar sólido
Respirar – um tormento de dor
Acordar sem vontade
Vontade em desaparecer
Estar mas não estar
Paisagens abstratas
Ouvir debaixo de água
Músicas deprimidas
Inverno sem fim
Pernas idosas
Memória baralhada
Ausência na pele
Fumo negro no peito
Querer que a bolha rebente
Que tudo se foda
Explodir longe
Adormecer e por lá ficar
Demência iminente ou
consciência presente?

Pronta

Hoje tomei um duche de raios de sol
Deixei que milhões de purpurinas
me invadissem e ornamentassem a pele
Abracei os cabelos numa coroa de estrelas brilhantes
Untei-me de flores coloridas
Polvilhei-me com arcos-íris pulsantes
Perfumei-me com buquês de nuvens
Maquilhei-me de borboletas tremulantes
Vesti-me de exímios diamantes
Calcei-me com macias asas de anjo
Inspirei a música mágica que pairava no ar
Celebrei o néctar dos deuses que me faz amar
Envolvi-me na capa lavrada de turquesas
Olhei-me no espelho e detive-me
Anuí com a cabeça
Sorri
e disse para mim:
Estou pronta!

A ir…

Está perto. A hora de partir vem a caminho. Já fiz as malas, levo pouca coisa. Já precisei de muito, hoje não preciso de nada. Apenas paz para ir, como um raio de luz, que desaparece lentamente à medida que o sol se põe, atrás do mar, deixando um rasto de brilho.
O manto engelhado que me cobre foi sempre a minha melhor proteção. Começou como seda fina, depois cetim, algodão, lã e por fim uma manta de retalhos que pouco me aquece mas é repleta e reflexo de vida – da minha e das que por mim deixaram marca. Dos meus amores, filhos, netos, amigos, paixões. São as manchas que me sarapintam a pele e contam histórias antes de dormir. Os sulcos são as facadas, os cortes dos vidros da existência a que sobrevivi. Os olhos, agora embaciados, foram os faróis que me guiaram e mostraram o caminho. A mente, agora perdida, fez de mim alguém que se nota. Os cabelos, outrora ondas de alcatrão, são apenas fios de neve. As coxas fortes, que te prendiam a mim, são somente uns palitos pálidos e carentes. As mãos que aconchegavam a roupa da cama, que limpavam, cozinhavam, carregavam, tratavam, acarinhavam e enxugavam lágrimas são apenas duas frágeis peneiras. As dores do corpo pesam-me no espírito. É assim. É o que o tempo nos faz. Esse maldito que nunca parou de avançar. Mas, está tudo bem. Sossega. Agora vou sem pressa. Vivi à máxima velocidade, aproveitei cada momento, viajei, fui intensa em tudo que me envolvi, amei com coração cheio, entreguei-me de alma e peito aberto, vivi à minha maneira. Vou feliz. Aguardo pacientemente. Ela deve estar a chegar, vou voltar para Ele. Não me chores, ri-te antes, quando pensares em mim. É o que desejo. Estarei sempre onde me quiseres colocar e um dia sei que nos voltaremos a encontrar.

Letras a saltar

O lume alto aquecia o chão da panela
Azeite quente começava a ganhar vida
O borbulhar aumentava o volume
A dança estava prestes a começar

O milho deitado
Ansioso aguardava
Bem comportado
Sentia o calor a envolvê-lo
Em breve, juntos
Iam cometer loucuras
Um tiro na tampa anunciava o começo
Depois outro
Outro
E mais outro …
A rajada ganhava forma
Enchia o espaço
Que encolhia e cedia o lugar
A olência envolvia o tempo
Volume que se derramava
Assim que a tampa se ia
As letras saltavam
Doidas para o papel
Soltas atropelavam-se
Caíam aos trambolhões
Sem pedir licença queimavam
Quem lhes tocasse encolhia-se
Sem tempo marcado
Fervilhavam de vida
Energia que
Como por magia
Se convertia
Em noites de poesia

Alguém que me explique

Sinceramente não entendo. Porque é que algumas pessoas se dão ao trabalho de pedir para seguirem outras, para que elas as sigam de volta para depois as deixar de seguir?!? Confuso? Pois! É o que acontece no Instagram. Para ganhar seguidores, vou dar follow a alguém, unicamente com o intuito desse alguém me dar follow também. Fico à coca e assim que isso acontece, dou unfollow a essa pessoa. Para quê? Unicamente para ter muitos seguidores e não seguir quase ninguém. Porquê? Fica bem, ter muitos a seguirem-nos e nós nem aí para os outros?
Se eu gosto de alguém ou do que essa pessoa posta (publica) eu quero segui-la. Sigo muita gente que não me segue e tudo bem. Posso não seguir na página, mas seguir no privado ou no pessoal. Se não gosto, não conheço ou não me acrescenta nada de bom, não sigo. Claro que se alguém que admiro me seguir também de volta e gostar do que posto, fico feliz, lógico.
Falo por mim, cada um terá as suas razões, mas acho essa atitude muito feia. No fundo, é acenar com a cenoura ao burro que vai andando pensando que a vai comer. Afinal não, é apenas um engodo. A isto chamo de enganar e, para mim, enganar é feio. Além da quantidade de tempo que se perde nesta canseira ridícula.

Luz

No longínquo corredor do tempo
Existem portas fechadas
que jamais se abrirão
Existem memórias rasgadas
Rostos riscados pela distância
Vultos esfumados e esquecidos
Existem vidas de outrora
Segredos guardados
Quartos escuros
Alguns assombrados
Cavalinhos de madeira
e bonecas de pano empoeiradas
Existem livros e filmes a preto e branco
Alguns mudos, outros não
Mas entre todas
Há uma porta fechada
Cuja luz rompe todas as frestas
Invade o longo e estreito espaço
Mostra o sol que guardei
Mas que nunca se apagou
Chama por mim
Atrai-me como um íman
Rendo-me
Protejo a vista
E abro-a
Pombas brancas voam livres
A energia espalha-se
Toca-me
Preenche-me
Não resisto
Permito que esse amor
brilhante como o sol, a lua, as estrelas e o mar juntos
Me invada e se propague no espaço
Antes noturno,
agora divino diamante radiante

nunca me abandonou