“És uma pérola”, sussurraste-me ao ouvido.

Esse pequeno ser, tão valioso, que só o é porque ao ser atacado por invasores externos produz uma substância de defesa que o transforma numa jóia singular de rara beleza.

Ao longo da vida também tive de criar muitas capas protetoras, tive de me cobrir de aço para aguentar as pancadas da vida, os intrusos mal-intencionados. Tive de atacar para me defender dos ataques.

Quantas lutas feridas marcaram o peito,

quantas dores escondidas fizeram o coração chorar,

quantas batalhas perdidas fizeram endurecer a pele,

quanta escuridão me obrigou a despertar outros sentidos

quantas lágrimas se tornaram madrepérola

quantas rugas na alma me fizeram crescer

Talvez por isso

possa hoje ser chamada

Pérola

Livre

Quando nasces com asas

Como fazes para não voar?

Tentas andar, correr, nadar, saltar

Fixas-te, prendes-te

Deixas que te fechem

Por quanto tempo?

Não podes contrariar a natureza

Como enjaular um espírito livre?

Como aprisionar uma alma solta?

Como pedir aos relâmpagos que calem os trovões?

Como pedir a um vento que não se torne um tornado?

Como pedir ao mar que se mantenha sempre calmo?

Como pedir a um vulcão para não eclodir?

Como pedir a alguém do ar que se fixe na terra?

Não há cárceres, amarras ou masmorras

suficientemente altas e fortes

que consigam aprisionar quem livre nasceu

Liberdade

Em terra de poetas,

liberdade e loucura conjugam-se;

os seres que por lá vagueiam e voam

são donos dos seus soltos desvarios.

Leves, flutuam até outra dimensão.

Escondem-se do material e do palpável,

fogem de si, dos demais e dos outros;

reencontram o passado,

premunem o futuro.

Estranhas criaturas, livres em si,

acorrentadas aos pensamentos

que teimam em soltar-se.

Fogem para o papel,

transformam líquido negro em tatuagem;

espalham-se entre linhas de metáforas difusas;

atravessam língua, cor, política ou religião

e atingem os que lhe dão permissão.

Invadem silenciosamente os sedentos da liberdade,

os que querem, os que precisam e os que desesperam

pela dança da caligrafia e pelo suor da viagem.

Sentem na pele a liberdade alcançada por sábios ancestrais,

ilustres mestres, insanos e sonhadores.

Perseguem avidamente, com sôfrego olhar e atenção,

os que habitam em esconsas bibliotecas,

sótãos obscuros e estantes encobertas aos possuídos pela distração.

Aos que buscam saciar a sua sede e busca,

que persistem sem desistir,

é-lhes desvelado o tesouro sem fim

da liberdade perpetuamente descobrir.

Sara B. Carvalho

Dia Internacional da Síndrome de Down

Sempre achei este texto divinal. Decidi partilhá-lo hoje convosco para assinalar este dia – um dos mais felizes da minha vida, pois foi quando o André teve alta do hospital depois de 11 dias de internamento. Faz hoje nove anos.

Uma tentativa de ajudar pessoas que não têm com quem compartilhar essa experiência única. Entender e imaginar é como vivenciar.

Frequentemente sou solicitada a descrever a experiência de dar à luz uma criança com deficiência. Seria como…

Ter um bebé é como planear uma fabulosa viagem de férias a ITÁLIA. Você compra montes de guias e faz planos maravilhosos! O Coliseu, o David de Miguelangelo, as gôndolas de Veneza. Você pode até aprender algumas frases em italiano, é muito excitante.

Após meses de antecipação, finalmente chega o grande dia! Você arruma as malas e embarca… algumas horas depois você aterra. O comissário de bordo chega e diz: – Bem-vindo à Holanda.

Holanda??!! Diz você. O que quer dizer com Holanda? Eu escolhi a Itália! Eu devia ter chegado à Itália! Eu devia ter chegado à Itália. Toda a minha vida eu quis conhecer a Itália!

Mas houve uma mudança de plano de voo. Eles aterraram na Holanda, e é lá que você deve ficar. O mais importante é que eles não a levaram para um lugar horrível e desagradável, com sujidade, fome e doença, é apenas um lugar diferente. Você precisa sair e comprar outros guias. Deve aprender uma nova língua e irá encontrar pessoas que jamais imaginara. É apenas um lugar diferente. É mais baixo e menos ensolarado que a Itália. Mas, após alguns minutos, você pode respirar fundo e olhar ao redor. Começa a notar que a Holanda tem moinhos de vento, tulipas e até Rembrandt e Van Gogh.

Mas todos os que você conhece estão ocupados indo e vindo de Itália, comentando a temporada maravilhosa que passaram por lá. E por toda a sua vida você dirá: – Sim, era onde eu devia estar. Era tudo que eu havia planeado.

A dor que isso causa nunca, nunca irá embora. Porque a perda desse sonho é uma perda extremamente significativa. Porém, se você passar a vida toda remoendo o fato de não ter chegado à Itália, nunca estará livre para apreciar as coisas belas e muito especiais existentes na Holanda.

Emily Perl Knisley, 1987

Felicidade sabe a liberdade

Liberdade sabe a ser criança

Ser criança sabe a dançar

Dançar sabe a sorrir

Sorrir sabe a paz

Paz sabe a respirar

Respirar sabe a mar

Mar sabe a relaxar

Relaxar sabe a sonhar

Sonhar sabe a voar

Voar sabe a alegria

Alegria sabe a amizade

Amizade sabe a partilhar

Partilhar sabe a oferecer

Oferecer sabe a receber

Receber sabe a gratidão

Gratidão sabe a vida

Vida sabe a ser

Ser sabe a poder

Poder sabe a Universo

Universo sabe a perfeição

Perfeição sabe a Natureza

Natureza sabe a pureza

Pureza sabe a doce

Doce sabe a amor

Amor sabe a Divino

Divino sabe a Felicidade

Tornaste-te uma obsessão

Um vício

Uma dependência

Sem ti nada mais era importante

Os dias ficaram cinzentos

As noites intermináveis

O teu corpo era o alimento do meu

Sem ti não existo

A dependência emocional é tão grave ou maior que uma dependência física. Assim como um drogado precisa da droga para conseguir funcionar e manter as suas rotinas e bem estar, assim também alguém que é co-dependente de outro precisa dessa pessoa. O problema é que qualquer coisa que o outro faça com a sua vida, irá refletir-se naquele que dele se “alimenta”.

Esta dependência não é só entre marido e mulher ou namorados; pode existir entre pais e filhos; amizades e até em relações profissionais. A pessoa que se vicia noutra abandona, por assim dizer, a sua vida para viver a vida do outro. Se o outro deixa e até gosta pode aproveitar-se para tirar diversos tipos de vantagens próprias. Isto de saudável não tem nada. O co-dependente anula-se, em detrimento do outro, mesmo sem se aperceber de tal. Quando se apercebe já a situação está fora do controle.

Nada como meditarmos e analisarmos regularmente a nossa saúde mental, emocional, a nossa paz e equilíbrio. Conhecermo-nos. Saber o que é que estamos a fazer com a nossa vida. Estamos a vivê-la ou entregámo-la nas mãos de alguém?

num dia de março

Estamos praticamente a meio do mês e olhando para os dias de março com celebrações assinaladas, parece-me interessante fazer um balanço. Começámos no primeiro dia com o Dia Mundial da Proteção Civil, em que se organizam habitualmente simulações, exposições, ações de sensibilização e outras iniciativas que tentam informar e integrar a população em geral. No dia cinco celebra-se o Dia Mundial da Oração, cuja origem começou com um movimento de mulheres cristãs no século XIX nos Estados Unidos e no Canadá, que tinha como propósito a defesa de mulheres e crianças. Também se dedicavam a rezar pelas missões cristãs espalhadas pelo mundo todo. Dia sete assinala-se o Dia de Luto Nacional pelas Vítimas de Violência Doméstica, aprovado em fevereiro de 2019 pelo Conselho de Ministros, como forma de prestar tributo às vítimas de violência doméstica e às suas famílias. Dia oito, o Dia Internacional da Mulher, cujo principal objetivo é reconhecer a importância e contributo da mulher na sociedade, bem como recordar as conquistas das mulheres e a luta contra o preconceito, seja racial, sexual, político, cultural, linguístico ou económico. O dia onze assinala Dia Europeu das Vítimas de Terrorismo, em honra das vítimas de terrorismo e presta-se homenagem a todas as pessoas que perderam a vida em ataques terroristas, partilhando-se a dor dos familiares e dos amigos das vítimas de terrorismo. Hoje, dia quatorze, assinala-se o Dia do Pi, o Dia de Santa Matilde, o Dia Branco e o Dia da Incontinência Urinária.

Há uma maioritária relação nestas celebrações com a palavra mulher. Seja pela defesa que precisam através da oração; seja por serem as principais vítimas de violência doméstica; seja pelas conquistas, mas constantes lutas contra todo o tipo de preconceito. Isto, continua a provar que há ainda um longo caminho a percorrer para que as mulheres deixem de ser consideradas desfavorecidas. Muito já se conquistou, mas muito mais há ainda para conquistar. Todos temos o dever de combater celeremente esta descriminação. Em casa, desde cedo, ensinar os filhos que a violência (seja ela qual for) não é permitida nem negociada; na escola, os professores falarem abertamente nesse assunto e incentivarem a denuncia; nos media, publicidade para consciencialização social; vizinhos que se apercebam chamem a polícia, não finjam não saber; agentes de autoridade, médicos, associações, tribunais, governantes e leis adequadas que ajudem as vítimas a saírem ilesas dessas situações e que punam os agressores antes destes serem chamados de assassinos. Prevenir é melhor que remediar. E para a morte não há remédio. Mas, acima de tudo, parece-me a mim que o mais importante é a própria mulher tomar consciência que ela é uma vítima e não a causadora e merecedora de castigo. Que situações de violência verbal e/ou física seja em casa, na escola ou no trabalho precisam ser denunciadas, assim como o assédio sexual. O medo e o segredo dão mais poder ao agressor que se vai apoderando cada vez mais de uma vida que não é sua e da qual não tem qualquer direito de se apropriar. Quem ama não faz chantagem emocional. Quanto mais cedo esse ciclo vicioso for rompido, melhor. Não há desculpa para aqueles que se dizem o sexo forte continuarem a aproveitar-se do seu género para menosprezar, magoar, violentar e matar aquelas que escolheram para partilhar o lar, a cama, a vida e serem mães dos seus próprios filhos. Como é que eles serão quando crescerem? Como é que um filho fica ao ver a mãe ser maltratada pelo pai? Ao sentir-se impotente contra a violência do progenitor? A sentir na pele uma vida negra de injustiças? A casa ou o lar deve ser o local onde nos refugiamos, onde relaxamos, respiramos paz e não um campo de minas onde, a qualquer instante, pode começar uma guerra. Mulheres denunciem, gritem, defendam-se, saiam, afastem-se enquanto é tempo. Um dia pode ser tarde demais. Quem sabe, não seja cúmplice. Essa história de “entre marido e mulher não se mete a colher” não faz sentido quando um deles corre risco de vida. Todos temos a obrigação de ajudar quem está nessa situação, mesmo quando a pessoa ainda não consegue compreender ou aceitar que precisa de ajuda.

Que possamos um dia assinalar essas datas com uma estatística bem mais favorável do que aquela que temos hoje.

Sonhos

Detesto o que de vez em quando me acontece e hoje foi um desses dias.

Acordo cedo, pelas seis da manhã, e tento desesperadamente desligar o cérebro, que se está completamente a borrifar para mim. Vai buscar tudo e um par de botas para mostrar quem é que manda. O que tenho para fazer durante o dia, coisas do passado, ideias para o futuro, o que disse e não disse, o que tenho de escrever… e todas as ligações, entre isto tudo, frenéticas como uma rede de autoestradas em hora de ponta. Finalmente, ao fim de mais ou menos uma hora, consigo adormecer. Acordo com o despertador às oito. Estava a dormir ferrada e deliciada, mas em sobressalto sou despertada pelas obrigações. Desta vez o cérebro não quer acordar e pior – está consciente do sonho que estava a ter e não queria que terminasse. Vou contar-vos qual foi o de hoje.

Estava num país estrangeiro, no restaurante de um hotel, que mais parecia um bar vintage com música, imensa animação, um grande buffet e uma mesa cheia de amigos. Vi um autocarro descapotável a chegar (nos sonhos tudo é possível) e lá em cima o Bruce Springsteen, que iria atuar mais tarde, vestido com um fato de licra com as cores da bandeira americana. O grande veículo parou e eu fui a correr para o poder ver de perto e pedir-lhe um autógrafo. Ele estava a andar muito rápido e haviam mais duas ou três pessoas, atrás dele, a pedirem-lhe o mesmo. Ele, acompanhado da mulher, também no seu fato de licra, pararam e ele começou rapidamente a dar autógrafos aos que estavam antes de mim, tentando despachar-se. A seguir fui eu – agarrei no meu bloco e procurei desesperadamente uma folha de papel em branco, mas só encontrava rabiscos, listas de compras e desenhos dos meus filhos. Para o empatar um pouco comecei a dizer-lhe (em inglês) que o admirava muito e ouvia as suas músicas desde os meus quinze anos… sempre à procura de uma folha limpa. Quando finalmente encontrei e ia-lhe dar o bloco para assinar, o despertador tocou! Que raiva. Fiquei mesmo chateada. Queria continuar o sonho. Talvez se voltasse a adormecer conseguisse; não seria a primeira vez. Mas, de novo, o cérebro meio desperto entrou em conflito comigo: “sabes que tens de te levantar, são horas, não podes adormecer…”; o mesmo cérebro: “dorme, pode ser que consigas continuar o sonho de onde ficou. Estava tão bom…” E pronto! Nem me levantei logo, porque estava mesmo com sono, nem voltei a sonhar com o autógrafo do Bruce Sprinsteen! Não é justo. Ainda por cima, com as saudades que tenho de jantaradas, saídas com amigos, concertos, viajar… estava ali tudo e foi-me roubado pelo monótono som do telemóvel.

Talvez amanhã.

Os céus lamentaram-se

Choraram e padeceram-se comigo

Enviaram-me uma chuva misericordiosa

Para me limpar a alma

As lágrimas que jorrava não chegavam

A lama que se alastrava por dentro vertia

Um terrível temporal avizinhava-se

A tempo ela chegou gelada até mim

Elixir do desespero ardente

Congelou os rios pardacentos

Purificou-os

Refrescou as ideias difusas

Perdidas numa vida ferida

Trouxe consigo a esperança

E avivou que todos os fins são também novos começos

Permaneci estendida até ela se cansar

Respirei a solidária terra fustigada

Ri, chorando, por finalmente me conseguir amar

Existem situações que nos deixam um sentimento agridoce, mas este em especial deixa-me um fim de boca prolongado a ferro oxidado.

É fantástico tudo o que a NASA faz e o robô Perseverance que chegou a Marte é mais que uma prova disso. Um robô e um helicóptero em distantes terras vermelhas à procura de antigos sinais de vida. Interessante, sim. Nível de importância para mim? Baixo. Porquê? Chamem-me de ignorante ou o que quiserem, mas então o que é que se poderia melhorar aqui no planeta azul? E se esses milhões que são gastos para descobrir o planeta vermelho fossem utilizados para ajudar todos aqueles que padecem na terra? Para mim faria muito mais sentido. Tanta gente a passar fome, miséria, sem casa para dormir, desalojados sem um país, filhos sem pais, guerras, sem-abrigos, doenças sem possibilidade de tratamento… mas, saber o que se passou em Marte é super importante. Fechamos os olhos a este mundo e partimos para outro. Faz sentido… mas enfim, isto sou eu que sou parva e não percebo nada disto.