– Amo-te

Podia sussurrar-te ao ouvido

Todos os dias

Se estivesses aqui

Se aceitasses o que tenho

O que te quero oferecer

– Amo-te

Escreveria a cada manhã

No espelho embaciado

Dos nossos mergulhos

Salpicados de espuma

– Amo-te

Diria ao almoço

Ao brindar contigo

Com o melhor néctar

Que roubaria aos deuses

Apenas para contigo celebrar

– Amo-te

Desenharia no teu corpo

Rasgando os lençóis

Na fúria da paixão que me consome

– Amo-te

A cada beijo que te faria suspirar

A cada contacto da nossa pele

A cada preliminar que te ofereceria

A cada carícia íntima no teu ser

A cada introdução profunda do meu

Deixa-me

– Amar-te

Falar de amor não quero
Não me apetece
Nem sempre estamos com disposição para amar
Para ver o mundo com olhos doces
Há dias
Talvez semanas
Não sei
Fases menos boas
Em que nada parece sorrir
Horas de céu nublado
Com chuva nos olhos
Apetece tudo menos amar
Por dentro há vontade de partir
Partir para longe ou a cara de alguém
Partir tudo
Destruir
Gritar
Vociferar
Destilar as mágoas
As dores
Os desapontamentos
As desilusões
Períodos que nada nem ninguém nos serve
Nem nós próprios

A depressão acena ao fim da rua
Sorri para nós
Atrai-nos
Com um grande algodão doce na mão
Ou será vodka?
Chama o nosso nome
Sussurra
Pela calada
Mantém-se atenta
[à] Espera
E tu, que fazes?
Vais?


(A depressão é um assunto sério; se sentir que os sentimentos de angústia, tristeza e ansiedade estão a instalar-se e não desaparecem, procure ajuda médica especializada)

Latejar

Há uma música e um tema que gosto, em particular, por causa da letra e da ligação especial que tenho com a sua mensagem. Vejam se sabem:

«Muda de vida
Se tu não vives satisfeito
Muda de vida
Estás sempre a tempo de mudar Muda de vida
Não deves viver contrafeito Muda de vida
Se há vida em ti a latejar»

Toda a restante letra é maravilhosa, mas vou pegar nesta última frase – «se há vida em ti a latejar
Existem pessoas, e todos nós já vimos, que parecem andar cá por andar; chamo-lhes mortos em vida. Outros há, também, que espalham raios de sol e flores por onde passam.

Latejar significa bater, palpitar, pulsar com frequência. É constante, marca uma cadência, um compasso, não nos deixa esquecer. Quando isso acontece, e sentimos “algo a bater”, “a martelar-nos na cabeça”, é o corpo a comunicar, a pedir uma mudança; devemos escutar.

Aconteceu-me já várias vezes, ao longo da vida, com diversas situações, empregos, lugares e pessoas.
O latejar de que tinha de fazer outra coisa, que ali já não estava feliz. O latejar daquele lugar que nos faz sentir mal e precisamos sair. O latejar de uma relação onde o principal já se foi.

Tudo é energia, e a verdade é que nem todas as energias vibram na mesma frequência. Devemos nos conectar com aquelas que estão em sintonia connosco.

Há inúmeros sinais que, se estivermos atentos, identificam, claramente, que tipo de palpitar está ali. Depois, cumpre-nos dar ouvidos a esse pulsar. Mudar aquilo que não está bem. A nossa intuição “fala” dessa forma.

Com as aprendizagens, e consequente amadurecimento, vamos alterando os nossos padrões e é por isso que certas pessoas, lugares, cargos, deixam de nos assentar bem. Deixamos de caber e começamos a sentirmo-nos desconfortáveis, apertados. Como uma roupa que nos deixa de servir, mas insistimos em usar.

Quando não queremos tomar uma atitude, muitas vezes, o Universo resolve por nós. Nem sempre a transformação ocorre da melhor forma porque andámos a evitar, e somos forçados a mudar, aquilo que não estávamos a ter coragem para alterar. O medo tolhe e é inimigo da mudança. Se for preparado, cuidado e consciente é sempre preferível.

As leis universais não falham. A lei da atração e da frequência são reais. Atraímos a mesma energia em que vibramos. Por isso, há tantas pessoas que passam pela nossa vida, alguns que até considerámos amigos, mas partem para outro caminho, e não deixam saudades, tiveram o seu tempo; outras que, entretanto, chegam e ocupam um lugar de destaque no nosso coração e, ainda, as exceções que ficam para sempre.

Empregos que foram fantásticos durante uma época, mas deixaram de o ser. Casamentos, casas, carros, roupas, penteados, cidades, destinos de férias…
Viver deve ser um prazer, devemos ser felizes com aquilo que somos, com o que fazemos, com quem estamos e onde nos inserimos.

Quando nascemos só nos é dada uma vida. O que fazes com ela?

«Olha que a vida não

Não é nem deve ser

Como um castigo que

Tu terás que viver».

(Letra e música de «Muda de vida» – António Variações/Humanos)

Volta

Não me posso perder
Sair de mim…
Sabem como é?

Eu sei.
Já o fiz
Vezes sem conta
Por um amor
Pela família
Por uma amizade
Por uma crença
ou
Apenas porque sim
Porque sou curiosa
Como as crianças
Que se metem em apuros
Nunca satisfeitas
Querem sempre mais.

Vamos descobrir
Onde vai ter este caminho?
O que está para lá do monte?
Vamos subir o rio?
Saltar pedras
Passar a ponte
Misturar sabores
Mergulhar no fundo do mar
Trocar todas as cores
Caminhar nas nuvens

Volta à terra miúda!
Onde é que já ias?
Não sei..
Para fora de pé
Para fora de mim

Não te esqueças do caminho de volta
Agora, já não…

“Que parceria tem a luz com a escuridão?”
Poderá existir amizade entre o sol e as trevas?
Alguém leal pode conviver com desleais?
A falsidade e a mentira podem ser parceiras da verdade?

Não.
Não por muito tempo.

Tentamos contornar
Ludibriar
Usamos velas, candeeiros
Lanternas ou candelabros
Pintamos com brilho dourado
Quem ao nosso lado está
Enganamo-nos achando que tal relação será possível
Abrimos as janelas
Mostramos os raios de sol

Mas, quando a noite cai
O negro espalha-se
Como uma mancha de óleo
Absorve a alma
Surgem contornos difusos
Sombras perdidas
Uivos arrepiantes
Vultos escondidos
A morte é certa
Pode tardar
Mas não falha
A nuvem negra tapará o sol
Que se recolhe e chora

Vida(s)

Já vivi vidas de mil cores
Vidas a preto e branco

Vidas com mil sabores
Vidas insossas
Doces e salgadas

Vivi histórias completas
Frases inacabadas
Interrogações
Pontos finais
Parágrafos

Quero viver

Mil vidas em tons de cinza
Vidas fluorescentes
Salpicos de cor em fundos virgens
Néon a piscar numa sala escura

Vidas bem temperadas
Com sabores de todo o mundo
Com gengibre e limão
Picantes e arrepiantes

Faltam-me contos por terminar
Poemas inacabados
Biografias por contar

Vivi muito
Quero mais
Muito mais

Há dias que nos dizem, ou lemos, algo que é mesmo aquilo que precisávamos de ouvir. Ontem, foi um desses dias quando li este post do Manuel Clemente.
Apesar de concordar e partilhar da mesma opinião “desde sempre”, há certas coisas que parece que esquecemos e é ótimo ter quem nos avive a memória.

Por vezes, insistimos em situações, relações, que sabemos que já não estão a funcionar, mas mesmo assim teimamos em continuar.
É como tentar enroscar um parafuso numa porca já gasta; por muito que apertemos não vai dar. Vamos ter de desistir e arranjar outros novos.

Assim é também com algumas pessoas com as quais nos importamos, mas cujo sentimento não é recíproco. Temos de perceber que há uma altura certa para desistir de apertar. Desistir de insistir. E isso não é cobardia, é sabedoria. É afastarmo-nos daquilo que além de não nos fazer bem, ainda nos faz mal.

Não aceites menos do que mereces!


Grata Manuel Clemente

Nem… Há sempre

Nem sempre a vida corre como planeamos
Nem sempre conseguimos o que imaginamos
Nem sempre chegamos onde queremos

Nem sempre tiramos o curso que imaginámos
Nem sempre temos a profissão que sonhámos
Nem sempre nos apaixonamos pela pessoa certa

Nem todos os caminhos vão dar a Roma
(Em Veneza, por exemplo,
vão dar à água)
Nem todas as ruas têm saída
Nem todas as pontes merecem ser atravessadas

Nem sempre fazemos as melhores escolhas
Nem sempre somos entendidos
Nem sempre compreendemos os outros

Nem sempre temos de nos justificar
Nem sempre temos de aceitar tudo e estar bem
Nem todos merecem a nossa consideração

Mas…
(Há sempre um mas…)

Todos os dias podemos tentar ser melhor
Todos os dias podemos aprender
Todos os dias podemos escolher como reagir

Há sempre possibilidades infinitas de, a cada novo dia, fazermos diferente!

Família (in)feliz


Artigo publicado ontem no @Repórter Sombra

Há uns anos, na época em que os restaurantes chineses ainda estavam na moda, existia no menu um prato chamado “Família feliz”, que ainda se tornava mais divertido quando dito pelo “emplegado”. Era uma combinação de diferentes ingredientes, cores e sabores distintos, que, unidos pelo mesmo molho, faziam o deleite de quem o escolhia. Cada um tinha o seu papel e importância; não seria o mesmo se faltasse algum deles.

Nas famílias também existem uma série de indivíduos diferentes, com características únicas, que estão unidos pelo mesmo sangue.
Cada um tem o seu feitio, personalidade, interesses e forma singular de viver a vida. O facto de existirem laços de sangue não faz daquelas pessoas siamesas, nem concordantes em tudo.

Nem sempre as famílias compreendem e aceitam as nossas escolhas. Quando assim é, o que fazer? Cortar com os laços ou mudarmos para agradar?

Há quem defenda que, apesar de geneticamente pertencermos a um grupo, por vezes, o que nos une são os laços de coração, os mais valiosos.

Por outro lado, há quem sustente que a família de berço é a mais importante e nunca deve ser abandonada, nem esquecida.

Então, e aqueles casos em que os familiares abusam dos seus menores? Ou existe violência doméstica?Abandono? Maus tratos e desrespeito? Ou qualquer outro tipo de comportamento doentio, maldoso, traidor e contrário ao esperado?

Não será válido, nesses casos, a consanguinidade não servir para muito? A não ser para tornar a dor ainda maior?

Quantos, se pudessem, não substituíam algum ou alguns membros da família? Quantos fazem de conta que eles nem existem? Quantos dão familiares como mortos, ainda em vida?

No entanto, há seres que se tornam família sem o serem. Pais, filhos e irmãos de diferentes mães. Substituem com grande distinção os herdeiros legais ao título.
Por isso, todos já ouvimos que “pai e mãe não é quem gerou o filho, mas quem o criou.”

Alguns amigos tornam-se tão chegados, que ganham um lugar no coração.
E, não será aí que os laços
falam mais alto?
Afinal, do que adianta termos o mesmo sangue, sermos da mesma família, mas não praticarmos a bondade, a aceitação, o perdão e o amor?

A família é deveras importante, mas, mais ainda, não será podermos ser quem somos?

A MAR

Hoje abracei o mar
Recebi-o de braços abertos
Vestida com um sorriso largo
Entreguei-me
Deixei que ele tomasse conta de mim
Permiti que me envolvesse o corpo e a alma
Aceitei a ondulação
Absorvi a frescura
Senti-lhe a cadência
Cada onda
Cada pulsar
Saboreei-lhe o tempero
Envolvi-me de sal e espuma
Inebriei-me com a sua beleza e profundidade
Deixei a areia vaguear-me na pele
Juntos éramos um só
Despedi-me e consenti que ele tomasse conta de mim
Fiquei com sabor A(mar)