Fui

Disse-te adeus

Virei costas

Precisei correr para longe

Deixei que o vento selvagem me levasse

Não deixei de te amar

Pelo contrário

Foi por isso mesmo que fui

Mereces melhor

Sou um nómada

Não te faria feliz

Perdoa-me

Os vícios são as minhas almofadas

A música a minha amante

A estrada a minha confidente

Os motéis o meu descanso

A guitarra e a mala são a única família

Horas perdidas nas noites sem fim

Pancadaria em bares errantes

Não é vida para ti

Mereces melhor

Morreria por ti

Amo-te

Quem sabe um dia…

⁃ Perguntaste-me?

Eu cá sou bom

Por muitos sóis, luas, marés, tempestades e estações que passem, haverá sempre quem se ache superior aos outros. Questiono-me se certas pessoas terão nascido de pais super-heróis, num outro planeta ou com capacidades extraordinárias e paranormais. Serão feitas de fibra metálica? Terão um cérebro totalmente infalível? Penso que, até agora, ainda ninguém assim foi encontrado.
Faz-me pensar então porque raio criaturas, em nada diferentes de todas as outras, se acham superiores. Porque têm um curso dos diabos? Um carro que parece um foguetão? Porque já viajaram pelo mundo? Porque têm roupas de marca? Porque têm milhares de seguidores? Porque vão à televisão? Porque ganham rios de dinheiro? Porque têm uma voz de rouxinol? Porque têm um QI acima da média? Porque têm uma religião soberana? Porque têm um corpo fabulástico? Porque são lindas? Porque são exímias na sua profissão? E então? Descobriram a cura para o cancro? Não. O elixir da juventude eterna? Também não. Nunca falham?
Porque é que alguns se consideram deuses? Os faraós achavam que sim. No entanto, comiam, bebiam, ficavam doentes e morriam. Como todos os outros. Podiam ter escravos, vassalos, assim como muitos hoje têm. No entanto, patrões e empregados, homens ou mulheres, debaixo da terra, somos todos iguais – pó. Pó de terra e não pó de diamante, ouro ou qualquer outro bem precioso.
Jesus foi o único homem que realmente podia se gabar. Era filho de Deus, era perfeito, multiplicava comida, transformava água em vinho, curava doentes e ressuscitava mortos. Coisa pouca! Gabava-se? Não. Dizia que era muita bom? Não. Atribuía sempre a honra e a glória ao Pai. Foi o homem mais humilde que por cá passou. O único que tinha verdadeiros motivos para se enaltecer. Mas por não o fazer, tornava-se ainda maior.
Temos mais: Leonardo da Vinci, Goethe, Einstein, Newton, Hawking… já morreram. Talvez esses pudessem dar-se ao luxo, pronto, ok! De resto, como dizia alguém: “as pessoas esquecem-se que são pessoas”. Apenas.

Salomé

A noite era vadia, a lua baixa estava grávida, e embriagada de vinho e sangria. Os vultos ganhavam vida com a luz chamejante das labaredas. Salomé, cigana de raça e de alma dispersa, vivia como a sua saia. Vermelha, alegre, expansiva, uma roda viva. Ganhava cor e sensualidade ao dançar em torno da fogueira. Os tons quentes do fogo, o bambolear das ancas, o contorno inebriante dos braços, repletos de pulseiras douradas, chispava como as chamas, nas sombras da madrugada. As mãos eram autênticos convites à perdição. Maldita de voluptuosos seios, que pareciam querer saltar do colo e esfregarem-se nos bigodes fartos dos errantes. A barriga lisa descoberta causava raiva e inveja a todas as outras que naquela idade já acusavam os fritos e os bolos paralisados em torno do umbigo. Mas Salomé não. Cintura delgada que hipnotizava olhares alcoolizados e sedentos de devassa. O movimento aquecia o sexo masculino presente, disfarçado entre tragos, gargalhadas e cantorias. Os longos cabelos negros saltavam brilhantes e quais demónios atiçavam olhares. Os putos de buço novato ficavam rijos num instante. Tentavam disfarçar, mas pobres. Alvo de chacota, sem nada poderem fazer, riam e batiam palmas ao som da música, que ia subindo de tom, dando ainda mais ânimo aquela diaba. Era assim que a chamavam. Umas por ódio e ciúme, outros porque era a tentação em pessoa, o pecado, o inferno que queimava entre pernas. Tirava o sono a muitos, fazia sonhar outros tantos. Olhos fortes como duas castanhas a crepitar, cheios de luz, emoldurados por fartas pestanas negras; num pestanejar convencia qualquer um a fazer o que queria. E ela sabia. Corpo de menina mulher, malvada, corrompia apenas a imaginação de quem a queria. Não era de ninguém, era do mundo. Todos a desejavam, mas nenhum a possuía.

Casa vazia

A casa está tão triste

A sala tão vazia

O quarto ficou tão amplo

Os espelhos refletem saudade

Os candeeiros choram a falta de luz

E a nossa cama?

Tão grande, deserta

Perco-me nas noites turvas

Congelo

Falta-me o calor do teu corpo

Mesmo que distante do meu

Sentia-te

Ouvia a tua respiração

O teu perfume envolvia os lençóis

Se antes não tinha espaço no roupeiro

Agora as camisas parecem esqueletos

pálidos, abandonados em isolamento, com peste

Falta-me a cor dos teus vestidos

O barulho dos saltos altos pelo soalho

As maquilhagens espalhadas pelo balcão da cozinha

Os longos fios dourados perdidos nas loiças, antes imaculadas

Até dos soutiens dançantes, que tantas vezes me irritavam por andarem perdidos,

sinto falta

Disseste que precisavas de espaço, de um tempo

Acho que já passaram mil tempos e espaço infinito

Onde estás?

Vejo-te em fotos, em festas, rodeada de amigas e amigos

Ris

Pareces estar feliz

O tempo está a fazer-te bem

Sabes que não te consigo dizer

Mas morro de saudades tuas

Penso que sabes que te amo

Que preciso de ti

Talvez o devesse ter dito antes

Dói-me o peito

Nada me encanta

Volta, amor

Sem ti

sou uma casa abandonada

Anjos vêm em pérolas

Pessoas há

Que sem o saberem

São anjos disfarçados

Aparecem do nada

Arranjam, acertam, alinham, cosem

Como faz um alfaiate

E desaparecem com a bruma da manhã quando o trabalho está feito

De algumas pouco sabemos

Não percebemos como entram nas nossas vidas

Apenas com uns pós mágicos

Uns sussurros, numa bola de algodão

Nuvens de luz repletas de purpurinas

Arcos-íris pulsantes

Estrelas que iluminam a noite

Confortam-nos com uma simples palavra

Mudam-nas para sempre

Fazem o bem sem nada esperar

Mas, por isso mesmo e por educação

Sabe (e fica-nos) bem agradecer

Reciprocidade é gratidão

Dás num dia, noutro receberás

Contrastam com tantas outras

Que apesar de existirem perto

Não lhes sentimos calor algum

Obrigada a todas as que passaram e continuam a passar por mim

Que me ajudam a chegar mais longe

Que fazem a diferença

Que me ensinam a caminhar

Que demonstram carinho

Que não têm medo de elogiar

Que gostam de agradecer e partilhar

Guardo-vos na memória do coração

Considero-vos uma prenda divina

Pérolas que o Criador às vezes deixa cair

A lua é a única luz que lhe guia os saltos

As pedras da calçada as únicas que a ouvem

As estrelas testemunham as rugas

As madrugadas são madrastas

Mas são o único ganha pão

Deixa as crianças a dormir, à guarda da escuridão

As sombras perseguem-na

O corpo gasto quer descanso

Não pode

Os predadores saem das tocas

Sente-lhes o cheiro

Olha para o relógio

Faz as contas

Pensa no dia seguinte

Imagina uma onda do mar

que a congela por dentro

e por fora

Olha para as unhas enquanto

reza para que seja rápido

e venha o próximo

A renda está em atraso

Os miúdos precisam de comer

E ela… ela não é ninguém

Limita-se a sobreviver

Sem saber bem porquê

Cuidar de nós

Existem hábitos que, por vezes, criamos para o nosso bem-estar. Vou partilhar convosco um deles porque o considero bastante positivo e produtivo – ler.

Leio livros que gosto, como thrillers e policiais, que me fazem viajar e entrar noutros mundos, mas, entre estes, tento ler um de autoajuda, desenvolvimento pessoal ou autoconhecimento, que me obrigam a mergulhar em mim, no meu mundo interior. Existem inúmeros no mercado.

Costumo dizer que normalmente é o livro que me escolhe. Vou andando pela livraria, eu prefiro fisicamente, mas também acontece on-line. Observo, vejo as capas, os autores, e quando algum me atrai leio o prefácio e os comentários. Se achar que vai ser bom, já não o largo. Às vezes, o problema é querer levar muitos, mas o nosso coração acaba sempre por conseguir fazer a melhor escolha.

Porque é que acho isto importante e decidi escrever acerca?

No meio de tudo o que vivemos – pressões familiares, sociais, económicas, responsabilidades, problemas para resolver, horários para cumprir, isolamento, medo da doença e medo do que o amanhã trará – entramos, frequentemente, num estado depressivo. Sentimos necessidade de respirar, sair, fugir. Muitas vezes, parece que vamos ficar malucos. Esquecemo-nos de várias coisas e nem sempre conseguimos manter o fio de uma conversa sem ter algumas falhas de memória. Dormimos mal, sentimo-nos cansados e até frustrados. Os noticiários colaboram. Deixam-nos angustiados e impotentes. Não se percebe de onde vem tanta maldade, violência, ganância, corrupção, egoísmo, pobreza e por aí fora. Felizmente, há ainda muita gente boa, solidária e que se preocupa verdadeiramente. Alguns conseguem fazer a diferença.

Mas, o que é que precisamos para ver o mundo melhor e aquelas pessoas do bem? Precisamos ler, conhecer, saber para depois decidir o que fazer. Com o quê? Com a nossa vida e com o conhecimento que adquirimos. É unicamente aí que podemos marcar a diferença, para nós e para os outros. Podemos mudar a nossa forma de pensar e de ver o mundo. Temos a possibilidade de melhorar a nossa vida, apesar das intempéries. Quando o fazemos emitimos uma frequência, uma energia que atrai outras semelhantes.

Fico sempre muito mais feliz e iluminada, chamemos-lhe assim, quando leio um desses livros que nos elevam. Não devem é de ser lidos como os outros; precisam ser ruminados. Implicam análise, meditação e tempo para pormos em prática o que aprendemos. Normalmente, sublinho, coloco dobras, corações ou estrelinhas em algumas partes que considero mais importantes para mim. Cada um fará como sentir melhor.

Uma das coisas que li, neste último livro de gestão pessoal, era que quem adquire o conhecimento deve passá-lo a outros, não o deve guardar só para si mesmo. Fez-me lembrar um filme que vi há muitos anos chamado «Favores em Cadeia». Adorei esse filme. Cada pessoa, a quem lhe era feita uma ação de bem (um favor), ficava, com a obrigação, de o fazer também a outro, como elos de uma corrente de bondade. Se fosse sempre assim, o mundo seria um lugar bem melhor.

Como tal, vou deixar-vos com um resumo que o próprio autor, Robin Sharma, faz no final da sua obra. Chamou-lhe «Liminares para uma vida bela».

1 – A principal tarefa de qualquer ser humano é fazer o seu trabalho interior. Todos os dias faz algo de significativo para te aprofundares. Para teres mais daquilo que realmente queres na vida, primeiro tens de te tornar quem realmente és.

2 – Encara a tua vida como uma fantástica escola de crescimento. Todas as coisas que vives, quer sejam boas, quer difíceis, vieram ao teu encontro para aprenderes a lição que mais precisas de aprender nesta fase particular da tua evolução enquanto pessoa. (…) pergunta a ti mesmo: «Que oportunidade é que esta pessoa ou situação representa?» Esta é uma grande fonte de paz interior.

3 – Sê para ti mesmo verdadeiro. A melhor vida é a vida autêntica. Nunca te traias. Retira a tua máscara social e tem a coragem pessoal de apresentar o teu verdadeiro eu ao mundo. O mundo ficará mais rico por isso.

4 – Lembra-te de que colhemos aquilo que projetamos. As nossas vidas exteriores são apenas um reflexo das nossas vidas interiores. Lança luz sobre o teu lado negro. Torna-te ciente das falsas premissas, crenças limitadoras e medos que te mantêm tacanho, e o teu mundo exterior mudará.

5 – Vemos o mundo não como ele é, mas como nós somos.  Aprende que a verdade, em quaisquer circunstâncias, é filtrada pelo teu vitral pessoal, o teu contexto pessoal. Limpa as janelas e limparás a tua vida. Então, verás a verdade.

6 – Vive no teu coração, pois a sua sabedoria nunca mente. Segue os incitamentos silenciosos do teu coração e serás conduzido em direção ao teu destino.

7 – Encara a vida com curiosidade. Ao abdicares do controlo, criarás um espaço para que as possibilidades entrem na tua vida e a encham de tesouros.

8 – Cuida de ti. Faz algo todos os dias para alimentares a tua mente, corpo e espírito. Estes são atos essenciais de autorrespeito e amor-próprio.

9 – Constrói ligações humanas. Dedica-te a aprofundar os laços com as pessoas que te rodeiam. Concentra-te em ajudar os outros a alcançarem os seus sonhos e preocupa-te mais com o serviço altruísta, em vez de com a auto gratificação. Vieste ao mundo para enriquecê-lo e estarás a trair-te a ti mesmo se esqueceres esta verdade.

10 – Deixa um legado. O anseio mais profundo do coração humano é a necessidade de viver em nome de uma causa superior a si próprio.  

Espero que analisem e meditem nestes conselhos. Se acharem por bem, tentem aplicá-los nas vossas vidas e transmiti-los também a outros.

Desejo-vos tudo de bom e lembrem-se que se todos somos um, o que cada um faz reflete-se em todos. Tudo o que semearmos, dentro e fora de nós, iremos colher – uma verdade bíblica, chamada também de Lei do Retorno.

Cuidem-se!

Texto publicado na revista Helicayenne Magazine Portugal – 05/2021

Ser mãe

Ser mãe é

Ser poder

É dar (a) vida

É fazer alguém

Exemplar

Ou nem por isso

O tempo o dirá

Cabe a cada uma

Oferecer e

fazer o seu melhor

É o maior investimento

E o maior retorno

Sem contrapartida

Amar e ser amado

É ter o coração nas mãos

A alma deslavada

O peito nu

É ter por alvo

Fazer daquela criatura

A melhor pessoa possível

É pensar três vezes

Antes de decidir algo

É cuidado permanente

São dias e noites

De alegrias

E arrelias

É um amor para sempre

Uma disponibilidade eterna

Um perdão verdadeiro

A maior benção

O maior tesouro

O verdadeiro milagre

A continuação da espécie

O contributo para o mundo

A semente que brotou

A madre que desabrochou

São o melhor de mim

Tenho três

A conta que Deus fez