Sentiste?

Hoje senti o teu beijo
Doce, brilhante
Molhado, prolongado
Senti o teu e o meu
Coração acelerado
Observei-nos de fora
Como quem admira um quadro
Tínhamos os olhos fechados
A proximidade que os corpos pediam
O calor que emanavam
O pecado que teimavam esconder
Estranho ver de fora
O que se sente por dentro
Fugíamos de encontro ao outro
Um querer disfarçado de negação
Jogar às escondidas e à apanhada
Percebia o teu desejo velado
Sabíamos o que queríamos e não devíamos

Acordei assim

Diz-me…
Enquanto sonhavas comigo
Estavas a dormir ou acordado?

Prisão

Na escuridão das trevas
Das noites infindáveis
Passadas em caves esconsas
Com cheiro a mofo
Negros e confusos labirintos
Humidade entranhada em longos túneis
Esgotos putrificados
Becos e cavernas sem fim
Sobrevoados por corvos
Povoados de morcegos, ratos e cobras
Caminhos sinuosos que conduzem ao fundo do poço
Mentes trôpegas facilmente ludibriadas
Escondidas da luz do dia
Subsistem na podridão do bolor
Assim vivem por décadas
Até decidirem morrer ou voltar a existir
A custo saem da lama peçonhenta
Rasgam as vestes contaminadas
Cortam com a decomposição
Lavam-se do fedor
Emergem para o sol
Cobrem a vista
Aguentam a dor
Transformam demónios em anjos

Existem alturas na vida em que passamos por buracos negros. Zonas turbulentas de dor, confusão, dúvida, impotência, solidão, frustração e tristeza. Não é fácil estar num túnel sem luz à vista. Dói sentir que estamos sós no lodo. Aparentemente não, mas no fundo sentimos que sim. Custa querer sair de uma situação, mas não saber como. Imaginamos estar num filme do Indiana Jones em que as paredes e o teto começam a encolher, a espremerem-nos, com répteis e insetos por todo o lado, para ajudar. Felizmente, assim como no filme, a situação não dura para sempre. A dificuldade em sair desses labirintos confusos; a força e a coragem necessárias para matar demónios; alterar a vida… não é fácil, nem acontece de um dia para o outro. Cortar com o que não nos faz bem, com o que nos tira o brilho de viver mas ao qual estamos habituados e, às vezes, imaginamos até que estamos condenados. Que merecemos aquela situação, que somos culpados e que somos dignos desse castigo. Essa autopunição atrasa a libertação. Pensar que as trevas talvez sejam a nossa sina até ao fim. Nestes casos, há uma falta de amor próprio, necessário para vermos as coisas como são. Essa consciência tem de ser tomada e passo a passo ir cimentando um novo “eu” com trabalho interno profundo. Nem sempre todos conseguem libertar-se sozinhos das amarras e conquistar esse amor perdido. Por vezes, é necessário aceitar ajuda externa. Seja como for, a escolha tem de partir de dentro. A tomada de consciência de que não se quer continuar no meio do mofo e da humidade; urge a luz solar. Esse primeiro passo é o mais importante para começar a resolver os problemas, um a um, e aos poucos sair do buraco. Tudo tem solução, menos a morte. Vale a pena o esforço. Enquanto há vida, há possibilidade de mudança, de alterar o que já não nos serve; romper o casulo, sair para o dia e apreciar as lindas cores de um arco-íris.

Por ti

Sempre que pediste fui
Mesmo até onde não queria ir
Sempre
Por ti
.
És a minha perdição
Por ti
Fujo
Vou ao fim do mundo
Traio a razão

És a minha paixão
Por ti
Saio
Conquisto
Rasgo a absolvição

És o meu amor
És a minha perdição

Não
Não quero
Estar longe de ti
Quero-te
Preciso tanto
Tanto
Desta loucura
Que me consome o coração

O teu cabelo sabe a sal
A tua pele a doce mel
Preciso desse contraste
Juro
Serei a ti sempre fiel

És o meu amor
És a minha perdição

Por ti…
Eu vou
Sempre…

O que decides ser?

Bem sei que ninguém me perguntou nada, mas já é uma característica que me corre no sangue – dizer o que penso mesmo sem ninguém perguntar ou, provavelmente, querer saber. Apetece-me fazer ao estilo Daniel de Oliveira. Não vou escrever o que dizem os meus olhos – não sairíamos daqui hoje pois depende muito dos dias -, mas vou dizer-vos algumas coisas que gosto e outras que não gosto. Não gosto de gente mentirosa. Não gosto de gente que se acha superior aos outros. Gosto de gente humilde, verdadeira, que se assume como é. Não gosto de gente invejosa. Gosto de pessoas que torcem pelo sucesso dos outros. Não gosto de gente quadrada, chata, cinzenta. Gosto de gente sol, alegre, que pensa fora da caixa. Não gosto que me digam o que fazer, mas tenho por hábito dar ordens. Gosto de ter tudo organizado. Não gosto de desarrumação. Gosto de dançar. Não gosto de estar fechada. Gosto de praia e de campo. Não gosto de barulho mas gosto de ouvir música aos altos berros. Não gosto de gelado de chocolate, mas amo chocolate. Gosto de comer e beber com a família e os amigos. Reclamo sempre pelo trabalho, mas adoro ter a casa cheia.

Não acredito que seja possível sermos só amor, luz, paz e desejar sempre o melhor a todos, mesmo àqueles que nos prejudicam e querem mal. Existem pessoas más, cruéis, mal educadas, sem princípios. E não me venham com a história do coitadinho porque na infância não teve amor. Quantos há que tiveram tudo e são uns merdosos? E quantos há que não tiveram pais, casa, amor, carinho, atenção, que lutaram com doenças, com indiferença, com discriminação, com pobreza, com abuso sexual e mesmo assim são boa pessoas!? Nem sempre aquilo pelo qual passamos é justificativo para ser-se uma má pessoa. Daquelas que só se sentem felizes quando veem os outros a sofrer; daquelas que têm tanta inveja que os olhos até chispam… não. Não me convencem a amar tudo e todos façam eles o que fizerem. Não prejudico ninguém nem me vingo, mas afasto-me e quando é, normalmente, é para sempre. Boazinha tem limites.

Era uma vez uma família…

Esta é apenas mais uma história banal, como tantas outras, que podia começar com:

Era uma vez… uma família normal em que o casal trabalha fora de casa, sustenta e educa dois ou três filhos e está casado por mais de uma década. Os desentendimentos sobre a educação dos menores já se instalou há muito, a paixão do início foi-se, as contas, o cansaço e as responsabilidades do dia queimam o desejo da noite. Ele fica quase sempre no sofá a ver todos os resumos e programas desportivos ou séries; ela vai para a cama com o seu livro ou navegar pelo Facebook. Espera que ele apareça mas, entretanto, adormece. De manhã, recomeça tudo. Despachar, vestir, comer, levar os miúdos, trabalhar, passar no supermercado, ir buscar os filhos ao ténis, à natação, à explicação, fazer o jantar… Dividem-se tarefas. São uma pequena empresa de gestão familiar. O afastamento físico é cada vez maior, assim como as discussões. Os dias vão passando. Ele começa a jogar à bola com os colegas duas a três vezes por semana (antes era só uma); ela começa a combinar jantares com as ex-colegas da faculdade, a maioria divorciada. Ele passa a trabalhar até mais tarde e tem muitas reuniões; ela agarra-se às redes sociais e começa a falar com alguns amigos que vai conhecendo. O abismo entre os dois é cada vez maior e todas as tentativas e investidas que ela toma parecem vir tarde demais e não surtirem grande efeito. Percebe que ele anda mais bem arranjado, mais cheiroso e bem disposto – longe de casa. Ela fica cada vez mais sobrecarregada com as tarefas domésticas e a administração do lar. Dá sinais de fadiga e depressão. Chora por tudo e por nada. Revive as fotografias do casamento e mostra-lhe enquanto diz com voz meiga: “lembras-te?” Ele anui com um sorriso e faz-lhe uma festa no rosto. Vira costas e sai.

Como é que esta história acaba? Depende.

Primeiro, os filhos. Há que manter a estrutura familiar e aparentar que tudo está bem para que estes cresçam felizes numa família estruturada (será mesmo?); segundo, ou talvez primeiro, o medo da mudança. Como abandonar uma situação familiar e partir para uma totalmente desconhecida que, ainda por cima, não é socialmente bem vista? Terceiro, quarto, quinto… depende da autonomia financeira de cada um dos cônjuges; da (in)dependência emocional; da idade; da capacidade de adaptação ao “morno”; do peso que as famílias e os amigos têm no casal e outros fatores que são inerentes a cada ser humano – que é totalmente diferente de outro -; das tentativas que ambos estão dispostos a fazer para regressarem ao passado ou de acabarem por se acomodar e até se sentirem confortáveis nesse registo. Existe ainda a possibilidade de se querer constituir família com outra pessoa, que entretanto ganhou relevância. Há finais para todos os gostos.

O melhor? Bom, o ideal é não deixar que a relação chegue a esse ponto. Claro que tem de existir um esforço conjunto; unilateral não chega. Perceberem que, todos os dias, ambos têm de trabalhar nessa relação com demonstrações frequentes de carinho, amor, respeito, consideração e perdão mútuo. Fazer amor, foder, conversar, partilhar conquistas, desafios e receios. Fazer daquela pessoa a melhor amiga e não um inimigo com quem tem de se competir para um lugar de destaque. Não cair na rotina. Planear programas diferentes a dois. União numa mesma direção. Prevenir antes de ter que remediar.

Só tu

Só tu conheces as tuas raízes
Só tu conheces a terra que te cobre
Só tu sabes a origem da água que te nutre
Só tu sabes a vegetação que te rodeia
Só tu entendes as tempestades que passaste
Só tu entendes o quão forte tiveste de ser
Só tu sentes as marcas que te feriram
Só tu sentes a seiva que te escorre como dor
Só tu és capaz de abraçar as tuas flores
Só tu és capaz de trilhar as pontes que te surgem
Só tu és digno de avaliar as experiências
Só tu és digno de julgar as tuas escolhas

Segue em frente

O gira-discos marcava o compasso da vida
Melodia para dançar em brilhante vinil
Por vezes riscado ali permanecia
Como nós que por vezes empancamos numa situação e ali ficamos até que alguém levante a agulha e avance
Momentos que nos travam e mantêm cativos numa espiral de ruído desnecessário
Nem sempre se dá o salto sozinho, por vezes é necessária ajuda externa
Há que pedi-la nesse caso
Não adianta ali ficarmos numa repetição sem fim
Mover em frente mesmo sem adivinhar os próximos riscos que virão
Assim é a vida que gira e segue sem parar
E nós, ficamos lá a remoer ou avançamos com ela?

Pensa

PENSA

Como me tratas
Como te afastas
Como mentes
Como te fechas
Como me ignoras

PENSA
No que fazes
No que dizes
No que sentes
Como vibras
Como falas
Como ages

PENSA
Podes magoar
Podes matar uma relação
Às vezes nem precisas falar
A tua expressão corporal
comunica por ti
Do que te vai dentro

PENSA
Será por isso
que ficarás conhecido
Pela mentira
Pela inveja
Pela conspiração
Pela raiva
Pela indiferença
Pelo azedume

PENSA
É isso que queres?
O que fizeres
Será a tua marca
O que és
É como te veem
Mais cedo ou mais tarde
A farsa é descoberta
O pano cai
O verniz estala
Ninguém te vai querer por perto
O que dás a ti retorna
Bom e mau

PENSA

Medo

A margem ora se afigurava perto,
ora longe demais
Embalada pela suave melodia do rio
observava distante o que se queria na pele
Mas… aquele sentimento paralisava-a
Tolhia-lhe cada músculo
Ali permanecia
Desejando um milagre para que tudo acontecesse

Nada

Aquela mancha escura no peito crescia e alastrava-se
Castrava-a
Quanto mais desejava ir
mais inerte ficava
Imaginava a vida no outro lado
Fantasiava um novo mundo
O medo impedia-a de experimentar os desejos da alma
A dúvida de um novo amanhã
mantinha-a cativa num hoje mais que passado
Queria que um vento forte a arrebatasse
E a levasse sem escolhas
para a outra orla
Onde os montes e vales são mais verdes
Onde o sol brilha todo o dia
Onde a felicidade é o ar que se respira
e a sombra fresca o júbilo que acalma

Ali ficava, à distância, a observar
Tricotando em vida
Tudo que conseguia sonhar
Quisera matar o medo e ir
Mas a lama prendia-lhe os pés
Agrilhoava-a em mágoas movediças
Não a deixava ser feliz

Está já ali,
na outra banda
Onde as margens brilham viçosas

Até quando

Acordaste cinza profundo
Carregado de pedra
Envergonha-nos

Respeito impões
Se nos decidires calar
Explodes em trovões

Quantas serão as preces
Que ecoam no vazio
Quanto será o sangue
Das dores derramadas
Das vidas vencidas
Engoles as espessas almas
Que acima se entregam
Que pelo ódio perderam o ser
Os curvados pelo peso que carregam

O pano estende-se
Chuva brumosa
Paira imóvel
Salpicos de amor
Dispersos pelo vento
Que poliniza o escuro
Com gotículas de cor
Semeando contra a negra maré
Esperança, paz, bondade e fé