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Cansei-me
Cansei de cansar-me
De esperar
Que tudo mudasse
E nada
Nada se alterava
As cores cinza
Sempre iguais
Os dias incansavelmente monótonos
As noites claras demais
O ar sólido
Respirar – um tormento de dor
Acordar sem vontade
Vontade em desaparecer
Estar mas não estar
Paisagens abstratas
Ouvir debaixo de água
Músicas deprimidas
Inverno sem fim
Pernas idosas
Memória baralhada
Ausência na pele
Fumo negro no peito
Querer que a bolha rebente
Que tudo se foda
Explodir longe
Adormecer e por lá ficar
Demência iminente ou
consciência presente?

Pronta

Hoje tomei um duche de raios de sol
Deixei que milhões de purpurinas
me invadissem e ornamentassem a pele
Abracei os cabelos numa coroa de estrelas brilhantes
Untei-me de flores coloridas
Polvilhei-me com arcos-íris pulsantes
Perfumei-me com buquês de nuvens
Maquilhei-me de borboletas tremulantes
Vesti-me de exímios diamantes
Calcei-me com macias asas de anjo
Inspirei a música mágica que pairava no ar
Celebrei o néctar dos deuses que me faz amar
Envolvi-me na capa lavrada de turquesas
Olhei-me no espelho e detive-me
Anuí com a cabeça
Sorri
e disse para mim:
Estou pronta!

A ir…

Está perto. A hora de partir vem a caminho. Já fiz as malas, levo pouca coisa. Já precisei de muito, hoje não preciso de nada. Apenas paz para ir, como um raio de luz, que desaparece lentamente à medida que o sol se põe, atrás do mar, deixando um rasto de brilho.
O manto engelhado que me cobre foi sempre a minha melhor proteção. Começou como seda fina, depois cetim, algodão, lã e por fim uma manta de retalhos que pouco me aquece mas é repleta e reflexo de vida – da minha e das que por mim deixaram marca. Dos meus amores, filhos, netos, amigos, paixões. São as manchas que me sarapintam a pele e contam histórias antes de dormir. Os sulcos são as facadas, os cortes dos vidros da existência a que sobrevivi. Os olhos, agora embaciados, foram os faróis que me guiaram e mostraram o caminho. A mente, agora perdida, fez de mim alguém que se nota. Os cabelos, outrora ondas de alcatrão, são apenas fios de neve. As coxas fortes, que te prendiam a mim, são somente uns palitos pálidos e carentes. As mãos que aconchegavam a roupa da cama, que limpavam, cozinhavam, carregavam, tratavam, acarinhavam e enxugavam lágrimas são apenas duas frágeis peneiras. As dores do corpo pesam-me no espírito. É assim. É o que o tempo nos faz. Esse maldito que nunca parou de avançar. Mas, está tudo bem. Sossega. Agora vou sem pressa. Vivi à máxima velocidade, aproveitei cada momento, viajei, fui intensa em tudo que me envolvi, amei com coração cheio, entreguei-me de alma e peito aberto, vivi à minha maneira. Vou feliz. Aguardo pacientemente. Ela deve estar a chegar, vou voltar para Ele. Não me chores, ri-te antes, quando pensares em mim. É o que desejo. Estarei sempre onde me quiseres colocar e um dia sei que nos voltaremos a encontrar.

Letras a saltar

O lume alto aquecia o chão da panela
Azeite quente começava a ganhar vida
O borbulhar aumentava o volume
A dança estava prestes a começar

O milho deitado
Ansioso aguardava
Bem comportado
Sentia o calor a envolvê-lo
Em breve, juntos
Iam cometer loucuras
Um tiro na tampa anunciava o começo
Depois outro
Outro
E mais outro …
A rajada ganhava forma
Enchia o espaço
Que encolhia e cedia o lugar
A olência envolvia o tempo
Volume que se derramava
Assim que a tampa se ia
As letras saltavam
Doidas para o papel
Soltas atropelavam-se
Caíam aos trambolhões
Sem pedir licença queimavam
Quem lhes tocasse encolhia-se
Sem tempo marcado
Fervilhavam de vida
Energia que
Como por magia
Se convertia
Em noites de poesia

Alguém que me explique

Sinceramente não entendo. Porque é que algumas pessoas se dão ao trabalho de pedir para seguirem outras, para que elas as sigam de volta para depois as deixar de seguir?!? Confuso? Pois! É o que acontece no Instagram. Para ganhar seguidores, vou dar follow a alguém, unicamente com o intuito desse alguém me dar follow também. Fico à coca e assim que isso acontece, dou unfollow a essa pessoa. Para quê? Unicamente para ter muitos seguidores e não seguir quase ninguém. Porquê? Fica bem, ter muitos a seguirem-nos e nós nem aí para os outros?
Se eu gosto de alguém ou do que essa pessoa posta (publica) eu quero segui-la. Sigo muita gente que não me segue e tudo bem. Posso não seguir na página, mas seguir no privado ou no pessoal. Se não gosto, não conheço ou não me acrescenta nada de bom, não sigo. Claro que se alguém que admiro me seguir também de volta e gostar do que posto, fico feliz, lógico.
Falo por mim, cada um terá as suas razões, mas acho essa atitude muito feia. No fundo, é acenar com a cenoura ao burro que vai andando pensando que a vai comer. Afinal não, é apenas um engodo. A isto chamo de enganar e, para mim, enganar é feio. Além da quantidade de tempo que se perde nesta canseira ridícula.

Luz

No longínquo corredor do tempo
Existem portas fechadas
que jamais se abrirão
Existem memórias rasgadas
Rostos riscados pela distância
Vultos esfumados e esquecidos
Existem vidas de outrora
Segredos guardados
Quartos escuros
Alguns assombrados
Cavalinhos de madeira
e bonecas de pano empoeiradas
Existem livros e filmes a preto e branco
Alguns mudos, outros não
Mas entre todas
Há uma porta fechada
Cuja luz rompe todas as frestas
Invade o longo e estreito espaço
Mostra o sol que guardei
Mas que nunca se apagou
Chama por mim
Atrai-me como um íman
Rendo-me
Protejo a vista
E abro-a
Pombas brancas voam livres
A energia espalha-se
Toca-me
Preenche-me
Não resisto
Permito que esse amor
brilhante como o sol, a lua, as estrelas e o mar juntos
Me invada e se propague no espaço
Antes noturno,
agora divino diamante radiante

nunca me abandonou

Fiz à minha maneira

Assim dizia Frank Sinatra. Assim desejo eu dizer quando chegar perto do fim. Aquilo que temos é, acima de tudo, aquilo que somos e aquilo que fazemos com a nossa vida. O modo como vivemos. E nada melhor do que termos vivido a vida à nossa maneira, de acordo com as nossas vontades e desejos. O que recebemos de bom e de mau ser consequência das nossas escolhas e não das de outros. 

É fácil deixarmo-nos influenciar pelo que nos rodeia – pais, professores, amigos, colegas, namorados, os media e por aqueles que, mesmo não conhecendo, admiramos ou seguimos. Cada vez mais, hoje em dia, com as redes sociais e a facilidade de acesso a qualquer informação, apenas com um clique, isso acontece. No tempo dos nossos avós e pais essa informação não estava tão disponível e era difícil saber o que se passava com os outros, para além dos nossos vizinhos. Agora, podemos saber o que se passa com alguém do outro lado do mundo. Mas, será que beneficiámos com isso ou tornou-nos mais vulneráveis?  

Talvez essa noção só chegue na fase madura. Quando desejamos começar a fazer anos em sentido inverso. Quando percebemos que, se calhar, metade da nossa vida já passou e talvez tenhamos feito pouco daquilo que era, verdadeiramente, a nossa vontade. Que engolimos mais sapos do que o desejado apenas para agradar os outros, ou para manter um emprego apenas porque precisamos do dinheiro, ou para não entristecer o pai que idealizou uma vida diferente para nós, ou não desiludir a esposa porque ela imaginava um príncipe encantado…. E por aí fora. Quem é que nunca se arrependeu de ter feito algo contrário ao que lhe apetecia? 

Quando estivermos para partir, quando for a hora de deixarmos a nossa vida, será que ficaremos orgulhosos de nós mesmos? Do que fizemos, do que dissemos, do que amámos? Será que vamos poder dizer que nos arrependemos pouco? Que planeámos os nossos caminhos e que caminhámos na direção que queríamos? 

Antes que chegue esse dia, vamos aproveitar e cumprir com aquilo que verdadeiramente somos, queremos, ambicionamos, desejamos, sonhamos. Acredito que temos uma oportunidade – uma vida, que deve ser vivida de forma plena para sermos felizes, realizados e não amargurados, torturados ou ficarmos na sombra de alguém. 

Que possamos dizer como o Frankie disse: «I lived a life that’s full and I did it my way» (eu vivi uma vida plena e à minha maneira).

Ó tempo…

O tempo,
um instante.

Falaste
Fizeste
Aproveitaste
Amaste?

Maldito momento,
já passou.

Devia ter dito aquilo
Devia ter feito diferente
Devia ter aproveitado melhor
Devia ter amado mais

Maldito tempo,
já passou.

Volta!
Anda para trás
Deixa-me apagar
Deixa-me alterar

O que não foi dito
O que não foi feito
O que não se aproveitou
O que não se amou

Maldito tempo,
já passou.

Aprende com o ontem
Vive o hoje
Prepara o amanhã
Fala, faz, aproveita e ama melhor que no passado

Maldito tempo,
passou num instante.

Vida é poesia

Que seria do poeta
sem a dor
sem a saudade
sem a perda
sem o sofrimento
sem o erro
sem a rejeição
sem a amizade
sem a paixão
sem o sexo
sem o calor do amor?
Que seria do poeta
sem o sol
sem o céu
sem a lua
sem as estrelas
sem o mar
sem a brisa
sem crianças
sem montes e vales
sem todos os animais
sem a beleza da natureza?
Que seria do poeta
sem a fala
sem a escrita
sem as letras
sem as cores
sem o som
sem os cheiros
sem os sabores
sem a caneta
sem o papel
sem os prezados livros?
Que seria do poeta
sem a música
sem a dança
sem o desporto
sem a pintura
sem o teatro
sem o cinema
sem a fotografia
sem a escultura
sem a literatura
sem a distinta arte?

Poesia é VIDA
A vida faz o POETA

Pelos cabelos

Não tomou a decisão de um dia para o outro. Pensou, ponderou, avaliou, chorou…
Levava anos de cansaço, das lidas da casa, do trabalho, dos filhos, do bêbedo e chato do marido… estava extenuada. Sentia-se oca, vazia, a precisar respirar, a precisar viver.
As responsabilidades infinitas; as contas intermináveis; as demandas constantes da família; os filhos sempre insatisfeitos; o homem da casa, que a traía sempre que podia; o lar que ela cuidava há anos, de manhã à noite, sem folgas. Farta de lavar, limpar, cozinhar, passar, arrumar sem que ninguém lhe desse valor. Não faziam nada e ainda reclamavam.
Rebentou.
Naquela noite, aquele moreno de cabelo comprido, em tronco nu, a tocar bateria, tocou-lhe a alma. O rock alto demais enchia o salão e o seu coração. Arrebatou-o e deu-lhe asas. Sentiu-se livre, até chegar a casa e levar uma tareia do marido. Quis morrer. O corpo não lhe permitiu. Não tinha forças nem para se matar. Se calhar, nem a coragem.
Enquanto as feridas da carne iam sarando, as do espírito iam-se tornando cada vez mais profundas.
Queria mandar tudo e todos à merda. Como?? E os miúdos? E o dinheiro que não tinha?
O moreno sussurrava-lhe: “Anda, vai ficar tudo bem. Mereces ser feliz, mereces viver”. E era isso que lhe faltava. Vivia para os outros, a vida dos outros. E a dela, onde teria ficado?
Naquela manhã fez uma única mala e saiu. Nunca mais voltou.