Emoções

Tranquila como uma floresta
Por dentro um fogo que arde

Nem sempre o rio corre tranquilo
Nem sempre o mar está calmo
Nem sempre os dias são de sol a brilhar
Nuvens, chuva, trovoada e tempestade
Fazem parte da natureza e do ser humano
Aceita e permite que assim seja

Podes trovejar
Há quem mereça ouvir o teu rugido
Podes ignorar
Há quem mereça o teu desprezo
Podes te afastar
Há quem não mereça a tua presença

Não deixes, no entanto
Que esse fogo se espalhe
Por ti, por outros, por quem não é digno
Não te deixes inflamar pelas chamas que pontualmente surgem
A seguir ao temporal deve voltar o céu limpo
O brilho do astro-rei deve aquecer
As águas do caudal acalmarem-se

Aquieta-as, controla-as
Sê o mestre da tua embarcação

Sem ti

Como viveria eu sem ti?
Alma errante abandonada
Triste em tudo seria

Existir sem respirar
Acordar sem luz do sol
Adormecer sem estrelas
Uma praia sem mar
Um deserto sem areia
Uma floresta queimada
Um campo sem flores

Ver sem cor
Cheirar sem olfato
Tatear sem sentir
Saborear sem paladar
Ouvir um mudo

Como viveria eu sem ti?
Tu que és oxigénio
Tu que iluminas os meus dias
Tu que me embalas as noites
Tu que és as ondas da maré
O oásis no ermo
O guarda verde florestal
O prado colorido e perfumado

És o arco-íris que me encanta
O perfume mais inebriante
O arrepio da pele
O céu da minha boca
A melodia dos meus ouvidos

És a minha terapia
Amiga
Confidente
Alegria
Coração que transborda
Ânimo da alma
O movimento dos meus pés
O ondular das minhas ancas
A vibração dos meus ombros
O ritmo que me guia
O pulsar da minha vida

És tudo, tanto e mais
És uma obra prima
Uma oferta divina
Viver sem ti, não, eu não poderia

Fui

Disse-te adeus

Virei costas

Precisei correr para longe

Deixei que o vento selvagem me levasse

Não deixei de te amar

Pelo contrário

Foi por isso mesmo que fui

Mereces melhor

Sou um nómada

Não te faria feliz

Perdoa-me

Os vícios são as minhas almofadas

A música a minha amante

A estrada a minha confidente

Os motéis o meu descanso

A guitarra e a mala são a única família

Horas perdidas nas noites sem fim

Pancadaria em bares errantes

Não é vida para ti

Mereces melhor

Morreria por ti

Amo-te

Quem sabe um dia…

⁃ Perguntaste-me?

Eu cá sou bom

Por muitos sóis, luas, marés, tempestades e estações que passem, haverá sempre quem se ache superior aos outros. Questiono-me se certas pessoas terão nascido de pais super-heróis, num outro planeta ou com capacidades extraordinárias e paranormais. Serão feitas de fibra metálica? Terão um cérebro totalmente infalível? Penso que, até agora, ainda ninguém assim foi encontrado.
Faz-me pensar então porque raio criaturas, em nada diferentes de todas as outras, se acham superiores. Porque têm um curso dos diabos? Um carro que parece um foguetão? Porque já viajaram pelo mundo? Porque têm roupas de marca? Porque têm milhares de seguidores? Porque vão à televisão? Porque ganham rios de dinheiro? Porque têm uma voz de rouxinol? Porque têm um QI acima da média? Porque têm uma religião soberana? Porque têm um corpo fabulástico? Porque são lindas? Porque são exímias na sua profissão? E então? Descobriram a cura para o cancro? Não. O elixir da juventude eterna? Também não. Nunca falham?
Porque é que alguns se consideram deuses? Os faraós achavam que sim. No entanto, comiam, bebiam, ficavam doentes e morriam. Como todos os outros. Podiam ter escravos, vassalos, assim como muitos hoje têm. No entanto, patrões e empregados, homens ou mulheres, debaixo da terra, somos todos iguais – pó. Pó de terra e não pó de diamante, ouro ou qualquer outro bem precioso.
Jesus foi o único homem que realmente podia se gabar. Era filho de Deus, era perfeito, multiplicava comida, transformava água em vinho, curava doentes e ressuscitava mortos. Coisa pouca! Gabava-se? Não. Dizia que era muita bom? Não. Atribuía sempre a honra e a glória ao Pai. Foi o homem mais humilde que por cá passou. O único que tinha verdadeiros motivos para se enaltecer. Mas por não o fazer, tornava-se ainda maior.
Temos mais: Leonardo da Vinci, Goethe, Einstein, Newton, Hawking… já morreram. Talvez esses pudessem dar-se ao luxo, pronto, ok! De resto, como dizia alguém: “as pessoas esquecem-se que são pessoas”. Apenas.

Salomé

A noite era vadia, a lua baixa estava grávida, e embriagada de vinho e sangria. Os vultos ganhavam vida com a luz chamejante das labaredas. Salomé, cigana de raça e de alma dispersa, vivia como a sua saia. Vermelha, alegre, expansiva, uma roda viva. Ganhava cor e sensualidade ao dançar em torno da fogueira. Os tons quentes do fogo, o bambolear das ancas, o contorno inebriante dos braços, repletos de pulseiras douradas, chispava como as chamas, nas sombras da madrugada. As mãos eram autênticos convites à perdição. Maldita de voluptuosos seios, que pareciam querer saltar do colo e esfregarem-se nos bigodes fartos dos errantes. A barriga lisa descoberta causava raiva e inveja a todas as outras que naquela idade já acusavam os fritos e os bolos paralisados em torno do umbigo. Mas Salomé não. Cintura delgada que hipnotizava olhares alcoolizados e sedentos de devassa. O movimento aquecia o sexo masculino presente, disfarçado entre tragos, gargalhadas e cantorias. Os longos cabelos negros saltavam brilhantes e quais demónios atiçavam olhares. Os putos de buço novato ficavam rijos num instante. Tentavam disfarçar, mas pobres. Alvo de chacota, sem nada poderem fazer, riam e batiam palmas ao som da música, que ia subindo de tom, dando ainda mais ânimo aquela diaba. Era assim que a chamavam. Umas por ódio e ciúme, outros porque era a tentação em pessoa, o pecado, o inferno que queimava entre pernas. Tirava o sono a muitos, fazia sonhar outros tantos. Olhos fortes como duas castanhas a crepitar, cheios de luz, emoldurados por fartas pestanas negras; num pestanejar convencia qualquer um a fazer o que queria. E ela sabia. Corpo de menina mulher, malvada, corrompia apenas a imaginação de quem a queria. Não era de ninguém, era do mundo. Todos a desejavam, mas nenhum a possuía.

Casa vazia

A casa está tão triste

A sala tão vazia

O quarto ficou tão amplo

Os espelhos refletem saudade

Os candeeiros choram a falta de luz

E a nossa cama?

Tão grande, deserta

Perco-me nas noites turvas

Congelo

Falta-me o calor do teu corpo

Mesmo que distante do meu

Sentia-te

Ouvia a tua respiração

O teu perfume envolvia os lençóis

Se antes não tinha espaço no roupeiro

Agora as camisas parecem esqueletos

pálidos, abandonados em isolamento, com peste

Falta-me a cor dos teus vestidos

O barulho dos saltos altos pelo soalho

As maquilhagens espalhadas pelo balcão da cozinha

Os longos fios dourados perdidos nas loiças, antes imaculadas

Até dos soutiens dançantes, que tantas vezes me irritavam por andarem perdidos,

sinto falta

Disseste que precisavas de espaço, de um tempo

Acho que já passaram mil tempos e espaço infinito

Onde estás?

Vejo-te em fotos, em festas, rodeada de amigas e amigos

Ris

Pareces estar feliz

O tempo está a fazer-te bem

Sabes que não te consigo dizer

Mas morro de saudades tuas

Penso que sabes que te amo

Que preciso de ti

Talvez o devesse ter dito antes

Dói-me o peito

Nada me encanta

Volta, amor

Sem ti

sou uma casa abandonada

Anjos vêm em pérolas

Pessoas há

Que sem o saberem

São anjos disfarçados

Aparecem do nada

Arranjam, acertam, alinham, cosem

Como faz um alfaiate

E desaparecem com a bruma da manhã quando o trabalho está feito

De algumas pouco sabemos

Não percebemos como entram nas nossas vidas

Apenas com uns pós mágicos

Uns sussurros, numa bola de algodão

Nuvens de luz repletas de purpurinas

Arcos-íris pulsantes

Estrelas que iluminam a noite

Confortam-nos com uma simples palavra

Mudam-nas para sempre

Fazem o bem sem nada esperar

Mas, por isso mesmo e por educação

Sabe (e fica-nos) bem agradecer

Reciprocidade é gratidão

Dás num dia, noutro receberás

Contrastam com tantas outras

Que apesar de existirem perto

Não lhes sentimos calor algum

Obrigada a todas as que passaram e continuam a passar por mim

Que me ajudam a chegar mais longe

Que fazem a diferença

Que me ensinam a caminhar

Que demonstram carinho

Que não têm medo de elogiar

Que gostam de agradecer e partilhar

Guardo-vos na memória do coração

Considero-vos uma prenda divina

Pérolas que o Criador às vezes deixa cair

A lua é a única luz que lhe guia os saltos

As pedras da calçada as únicas que a ouvem

As estrelas testemunham as rugas

As madrugadas são madrastas

Mas são o único ganha pão

Deixa as crianças a dormir, à guarda da escuridão

As sombras perseguem-na

O corpo gasto quer descanso

Não pode

Os predadores saem das tocas

Sente-lhes o cheiro

Olha para o relógio

Faz as contas

Pensa no dia seguinte

Imagina uma onda do mar

que a congela por dentro

e por fora

Olha para as unhas enquanto

reza para que seja rápido

e venha o próximo

A renda está em atraso

Os miúdos precisam de comer

E ela… ela não é ninguém

Limita-se a sobreviver

Sem saber bem porquê