Só tu

Não precisas escrever poesia

Nem tampouco cantar ou tocar para mim

Adoro as flores que me dás em dias ao acaso

O diamante que me colocaste no dedo

E o cuidado que tens comigo todos os dias

Mas o melhor…

O melhor é quando rimas com o meu corpo

Quando os teus dedos me percorrem com desejo

Quando as tuas mãos se apoderam com calor

Quando a tua boca me engole sofregamente

Quando os teus olhos me devoram com ardor

Quando o teu corpo me absorve com tesão

Quando tudo em mim desagua em ti

Quando ardemos juntos em paixão

Poemas e histórias que contas sem falar

Versos que declamas sem se ouvir

Música que me enreda e me faz sonhar

Um recital de pássaros que me faz ressurgir

Nas nuvens fico a flutuar e a sorrir

Quero para sempre

nos teus braços me confinar

E poder

eternamente te amar

Alma de poeta, alma inquietA

Alma inquieta

Tantas vezes alheada

Outras tantas desperta

Alma de poeta

Não se contenta em viver

Quer mais

Almeja ser, poder, fazer

Observa, pensa, lê

Na verticalidade dos versos que encantam

Pelas pontas dos dedos caem e se derramam

No fundo branco brincam e se procriam

Dão voz e prestígio aos que os declamam

Das experiências vividas

Aliadas à forte imaginação

É um mundo (im)perfeito em si

Um querer sem fim

Querer correr e voar

Uma necessidade do peito

A liberdade resgatar

Alma irrequieta

Um desassossego do coração

Um cérebro frenético

Uma vida que pulsa com e sem razão

25 abril

Um marco

Uma nação

Uma liberdade

que se impunha

Uma Revolução

que com cravos se propunha

E uma ditadura se depunha

Gentes que arquitetaram

Prepararam e executaram

Muito obrigada

Sem vós

Não podia ser hoje

Livre para falar

Livre para alto rezar

Livre para escrever

sobre tudo que me apetecer

Só em pensamentos

Em caves esconsas

Esconderijos de matilhas

Que mais não eram que

Corajosos defensores do que temos agora

Apenas com dois meses de vida

De nada me apercebi

Mas sou muito grata

A todos que se envolveram

E o futuro de um país não comprometeram

Ela

Aquela mulher misteriosa fascinava-o ao ponto de, todos os dias, àquela hora, ficar plantado atrás do vidro da cozinha para a ver passar. Aquele particular equilíbrio em saltos tão altos, fazia todas as curvas do corpo sobressaírem e seduzia-o. Como será que ela conseguia? E os vestidos colados que limitavam cada passo a poucos centímetros? Ostentava-os matematicamente num corpo de equações com derivadas que todos queriam resolver. Quem seria o felizardo? Nada sabia daquele monumento, apenas que atravessava a sua rua e, por baixo da sua janela, deixava no ar o rasto do seu perfume doce. Secretamente abria-a e com a cabeça de fora, debruçado no parapeito, sentia-lhe o gosto e imaginava aquele corpo colado ao seu. Só essa imagem deixava-o duro. Como era possível? Nem o nome dela sabia…nada. Sabia apenas que a desejava.

Tremo

Não sabia que raio de energia era aquela que emanava dele e que a paralisava. Logo ela que não tinha quaisquer problemas em comunicar, pelo contrário. Na presença dele ficava muda. Pior, o pouco que lhe saía era melhor que ficasse retido. Sentia os joelhos frouxos, o sangue ora a abandonava e sentia-se prestes a desmaiar, ora afluía de tal maneira que parecia estar dentro de um caldeirão.

Não percebia porque é que queria tanto estar com ele e fantasiava beijos de cinema, quando ele a fazia sentir-se doente e às portas da morte. Ele mal reparava nela. Às vezes, ficava grata pois não queria que ele percebesse o estado lastimável em que ela ficava; noutras, apetecia-lhe mesmo cair-lhe aos pés para ver se ele reparava e a agarrava. Podia ser que lhe tirasse os óculos, enquanto lhe limpava o suor frio do rosto, e lhe desse umas palmadinhas ou até um beijo para a acordar, qual bela adormecida. Entretanto… sonhava e suspirava.

Quero-te

Ainda te amo

Ainda te desejo

Sonho contigo

A dormir e acordado

Deixa-me mergulhar nas tuas ondas

Deixa-me trilhar os teus percursos

Deixa-me acelerar nas tuas curvas

E descansar entre os teus seios

Quero-te tanto

Quero-te ainda mais

Tanto que dói

O sabor da tua boca –

Não há mel igual

O toque da tua pele –

Não há seda igual

O cheiro dos teus cabelos –

Não há perfume igual

O efeito do teu corpo no meu –

Não há nenhum outro igual

Pode ser como quiseres

Desta vez não me vou queixar

Vou aceitar a tua decisão

Prometo

Tu mandas

Deixa-me sentir vivo de tesão

Aceito o que quer que seja

Para te ter de novo

E viver nesta doce ilusão

Será, não será…

Gente das minhas redes

Não se preocupem comigo

Nem sempre aquilo que lêem

Aconteceu-me ou é um perigo

Escrevo frequentemente

O que vejo, oiço, leio e imagino

Nem sempre sobre mim,

mas muitas vezes sobre ti

Qualquer escritor sabe

As linhas são metáforas, hipérboles,

filosofia, psicologia, poesia, divagação,

inspiração e muita imaginação

Por vezes, são apenas conselhos

vestidos com capas de histórias “reais”

Apenas ficção, mistura ou talvez não

Portanto… pensa

e não retires uma incerta

e errónea conclusão

Fechou abruptamente as grades, premiu o botão, virou-se, agarrou-a e encostou-a à parede do elevador. As mãos firmes subiam pelas coxas, ancas, cintura, costelas e lateral do peito, onde se demoraram. O vestido sentiu-se enxovalhado. O coração cavalgou disparado. Seguiram caminho pelos braços, elevados acima do carrapito despenteado, onde lhe prendeu as mãos nas suas. Os lábios brincavam com os dela, atiçando-a com suaves mordidelas, alternadas com a língua que, solta no pescoço, fê-la soltar um gemido mudo. O calor aumentava a cada respiração sustida e entrepernas o corpo reivindicava mais. Emoldurou-lhe o rosto com as mãos e deteve-se a beija-la, desta vez, sofregamente.

Quem nunca?

Já passava das duas; tinha jurado nunca mais lhe ligar, mas os vodkas acumulados sussurravam-lhe o contrário. O bar repleto de gente desconhecida, que parecia entretida e feliz; um ou outro bêbedo que, de vez em quando, se aproximava com falinhas mansas, com o intuito d’arrastar dali; o aperto no peito que aumentava, a cada segundo, com as saudades dele.

Mandou-lhe mensagem. Arrependeu-se de seguida, mas já estava. A cabeça pesava-lhe. A resposta não tardou: “Onde estás?” Ficou na dúvida se haveria ou não de responder. Sabia qual seria o desfecho. Disse-lhe. Que se lixe, pensou.

Baseado no livro 777 ( a ser publicado em breve)